Com mais de 15 anos de experiência em eventos corporativos, o escritor e roteirista Bogado Lins, um dos maiores e mais conhecidos do Brasil, transforma sua trajetória em aprendizado prático no livro Manual do Roteirista de Eventos. Nesta entrevista, ele fala sobre as oportunidades do mercado de roteiros, o papel do networking e da especialização para quem deseja ingressar nesse segmento. Também aborda o futuro dos livros em uma era audiovisual, o uso das redes sociais para construir autoridade e como transformar obras de não ficção em negócios rentáveis, cursos e palestras.
Luiza Camargo: O que o levou a escrever o livro Manual do Roteirista de Eventos?
Bogado Lins: Costumo sempre buscar conciliar projetos pessoais aos profissionais. Como escritor, roteirista e redator, queria registrar de alguma forma os aprendizados que tive ao longo da minha carreira de mais de 15 anos de eventos corporativos. Não sabia se era um curso, um livro de crônicas ou mesmo uma mentoria, algo assim.
Foi quando o meu editor fez essa provocação: que tal escrever um manual sobre o assunto? Foi o incentivo final para realmente me debruçar sobre o projeto. Mesmo assim, levei cerca de 2 a 3 anos até o projeto realmente tomar forma.
Luiza Camargo: Você acredita que se profissionalizar como roteirista de eventos pode ser uma boa oportunidade para escritores que desejam aplicar seu talento em outras áreas da comunicação?
Bogado Lins: Eventos é um segmento que sempre necessita de novas pessoas. Muitas vezes por necessidades específicas. Há eventos que precisamos de um grafiteiro para fazer uma arte ao vivo, outros um sommelier de vinhos ou cerveja, ou mesmo um ator ou bom orador para declamar uma poesia. Nesses 15 anos, já vi e procurei também de tudo, como planejador.
Outras vezes, os eventos agregam novas pessoas simplesmente por serem um setor de mão de obra intensiva. Quantos produtores ou técnicos de eventos conhecemos que vêm de outras áreas? Roteiristas de eventos também são assim. Há sempre novos talentos aparecendo por agarrar uma oportunidade. Claro que em São Paulo especificamente o mercado é mais consolidado e acaba recorrendo a alguns profissionais que se especializam. Agora, se especializar frequentemente significa ter recorrência, ganhar experiência e isso, claro, pode ser doloroso para um profissional, ainda mais num segmento que é composto majoritariamente por profissionais liberais ou pequenas empresas, além de muito exigente. Qualquer erro pode significar a perda de um cliente. E aí acredito que o Manual possa cortar caminhos e permitir esses profissionais estarem mais prontos para o desafio.
Luiza Camargo: O mercado de roteiros para eventos é muito atrativo. Quais seriam, na sua opinião, três dicas práticas para quem quer ingressar nesse segmento?
Bogado Lins: O manual tem algumas dicas a respeito, mas vou dar um breve spoiler. Se pudesse dar 3 dicas seria se aproximar dos 3 principais públicos que fazem parte do ecossistema de eventos.
1- as agências. Elas concebem os projetos, participam de concorrências e muitas vezes uma pessoa com talento na escrita é útil. Pode ser o que chamamos de planejamento criativo e mesmo em algumas ocasiões ter oportunidades de escrever roteiros. 2 – produtores. Perceba que apesar deles muitas vezes estarem em uma agência, o mercado é muito flutuante, por isso ter um boa rede de contato entre produtores pode cortar caminhos para entrar no mercado. 3 – por fim, as próprias empresas, muitos profissionais que fazem eventos para suas próprias empresas acabam tendo oportunidades de experimentar escrever roteiros, planejar e essa experiência pode ser aproveitada posteriormente.
Luiza Camargo: Cada vez mais, o sucesso de um livro depende mais do autor do que da editora. O que um escritor pode fazer para se destacar?
Bogado Lins: Acredito que deve fazer que nem todo profissional hoje em dia. Dedicar tempo para divulgação para amigos, colegas e suas redes, mas não se limitar a isso. Ter um perfil nas redes sociais profissional e que gere conteúdo constante e relevante é o principal. O ideal é que seu livro se integre a sua comunicação como profissional. Se você escrever literatura, por exemplo, busque ter um perfil que reflita isso e gere conteúdo sobre. No meu caso, como minha atividade foco é eventos, o livro se integra perfeitamente.
Luiza Camargo: Quais foram os principais livros e referências que influenciaram a escrita do Manual do Roteirista de Eventos?
Bogado Lins: Claro que a base de uma redação para marcas sempre deve estar fundamentada em pilares do marketing e do branding. Sou um cientista social e escritor, não venho diretamente da área, mas autores como Philip Kotler, David Aaker e mais recentemente Simon Sinek são referências para mim. Mas minhas fontes principais são de texto, até por ser focado em storytelling, por isso acabam sendo muitas vezes na área das humanidades ou mesmo literárias. A semiologia de Roland Barthes, os mecanismos do riso de Henry Bergson, a Jornada do Herói de Joseph Campbell, a subversão poética de Manoel de Barros. Quanto mais referências textuais e conceituais em geral para o roteirista melhor.
Luiza Camargo: Com o declínio dos jornais e revistas, os escritores passaram a depender das redes sociais para divulgar seus trabalhos. Como você lida com essa exposição e qual é a sua estratégia nas redes para promover seu livro?
Bogado Lins: Este livro, como falei, está diretamente ligado a minha atividade profissional. Ele se integra na minha estratégia de divulgação profissional na medida que reflete a minha experiência adquirida no segmento.
Sendo assim, ele me ajuda a se aproximar de agências como uma ferramenta de relacionamento e para divulgar também minha empresa, a Houseria. Agora, bons veículos de comunicação sempre são e devem continuar sendo importantes.
Luiza Camargo: Vivemos em uma sociedade cada vez mais audiovisual. Na sua visão, qual é o futuro do livro nesse contexto de transformação da atenção e do consumo de conteúdo?
Bogado Lins: Sem dúvida, o audiovisual tem crescido com os tempos nas telas. Mas, por paradoxal que seja, acredito que os eventos tenham ganhado ainda mais relevância para as pessoas. Afinal, são oportunidades para se aproximarem de verdade dos assuntos, ídolos e pessoas em geral, que tenham gosto similar.
Além disso, as pessoas acabam virando canais elas mesmas, divulgando a presença no seu evento, sendo embaixadora do assunto, do artista, da marca. Não à toa, hoje, o orçamento de comunicação da maior parte das marcas seja dividido entre campanhas e eventos. Quando antigamente, os eventos eram o patinho feio. Tinha até um termo BTL que significava “bellow the line”, enquanto as campanhas, ainda grande parte na tv, eram o “Above the line”. Hoje acredito que nenhuma marca ou profissional de marketing entende que esse tipo de experiência seja abaixo da linha.
Luiza Camargo: Diante do crescimento das pequenas editoras digitais e das mudanças na distribuição após o domínio da Amazon, quais critérios você considera essenciais para escolher uma boa editora?
Bogado Lins: Acho que as pessoas que fazem parte da editora. Você conhece o seu editor? Sabe o quanto ele está disposto a te ajudar nessa jornada? O Guilherme Tolomei, uma grande referência no mercado editorial, me ajuda há muitos anos, nos meus outros projetos literários e acredito que ele me fez um bom trabalho dentro do que espero.
Agora, o escritor sempre tem que estar atento, conduzir junto o processo e, claro, saber que o editor é um parceiro, mas você é o protagonista do processo. Já se foi a época que a editora realmente investia nos autores. Elas fazem isso quando o autor em si já oferece uma grande oportunidade pelo nome e reputação construída anteriormente. Ou seja, não tem muito onde fugir.
Luiza Camargo: Hoje, há autores de não ficção que faturam mais de um milhão de reais com a venda de livros, de mão em mão, em palestras e eventos. Você considera esse um bom modelo de negócio?
Bogado Lins: Para falar a verdade, esse é o meu plano de negócio, rs. Acredito nele e é o que pretendo realizar. Falamos mais para frente se ganhei um milhão.
Luiza Camargo: Você acredita que o livro ainda é um bom cartão de visita para vender serviços e construir autoridade? Como você utilizaria isso a seu favor?
Bogado Lins: Como disse anteriormente, esse manual acabou surgindo como uma forma de combinar meu talento com texto e minha experiência no segmento. De alguma maneira, ele é um resultado orgânico da minha trajetória profissional, por isso não posso dizer que seja uma estratégia. Foi quase como uma catarse. Agora, claro que uma vez ele pronto, a intenção é divulgar meu trabalho e minha experiência a partir dele, além de servir para referendar a minha empresa e do meu trabalho como roteirista.
Luiza Camargo: Você tem planos para próximos livros de não ficção? Existe uma rotina de escrita que segue para manter a produtividade?
Bogado Lins: No momento, acredito que o melhor seja expandir o projeto para cursos online, mentorias e oficinas. Tenho outros projetos criativos que ainda não concretizei mas que são de outra natureza, digamos assim.
Sobre rotina de escrita, escrevo praticamente todos os dias, mas a maior parte acaba sendo para os meus clientes.
Luiza Camargo: Muitos escritores têm transformado seus livros em cursos e alcançado grande sucesso financeiro. Você imagina seguir esse caminho também?
Bogado Lins: Sem dúvida, o próprio manual tem um mini-curso com 10 dicas que podem, digamos, ser um atalho para quem não é muito da leitura. Os próximos passos, naturalmente, é organizar um curso, palestra, oficina e outras atividades similares que também tem potencial para ser um canal de venda do manual.
Luiza Camargo: Qual é a importância de um bom lançamento para o sucesso comercial e a divulgação de um livro?
Bogado Lins: Acho que os editores estão mais capacitados para responderem essa pergunta. O que posso dizer é que um bom lançamento, além de sair bem na foto, dá um ânimo para continuar divulgando o projeto, acreditar nele. E, claro, já começar com uma boa venda.Se você perguntar para o Tolomei, meu editor, ele vai falar um monte de outras coisas também.
Agora, de verdade, é sempre o início de tudo. Depois tem ainda muito trabalho pela frente,rs.
Luiza Camargo: Todo escritor enfrenta momentos de dúvida. Como manter a motivação quando parece que as ideias não repercutem como antes?
Bogado Lins: A disciplina é essencial. Não tem jeito. Fazer um bom planejamento do que você tem que escrever, buscar adiantar demandas na medida do possível, marcar entregas intermediárias. Agora, tenho que admitir que como profissional, minha disciplina com meus clientes acaba sendo maior do que com meus projetos pessoais.
Pensando na resposta da sua pergunta, quanto mais me envolvo num projeto com outras pessoas, mas acabo assumindo compromissos o que me ajuda nessa jornada. Agora, não é uma resposta definitiva. Até porque o início de um projeto pessoal é sempre em você mesmo.
