ENTREVISTA

Ele faz escritores ganharem dinheiro. E conta todos os segredos

Por Luiza Peixoto

Enquanto muitos autores ainda acreditam que basta escrever bem, Fabio Rejgen, um dos principais agentes literários independentes do Brasil mostra por que o sucesso real depende mais de posicionamento, estratégia e visão de carreira. Nesta entrevista ele explica como transformar um autor em ativo de mercado, o erro que 90% dos escritores cometem e por que sorte não entra no planejamento.

PANORAMA DA ESCRITA: Você é um dos maiores agentes literários independentes do Brasil e é conhecido por defender que escritores focados a longo prazo podem ter uma carreira rentável . Quais são os pilares que orientam suas decisões estratégicas?

Fabio Rejgen: Meu foco é ajudar escritores em início de carreira. Percebi ao longo dos anos que o mercado brasileiro mudou muito, principalmente depois da pandemia. Atualmente, grandes editoras não investem mais seu orçamento em projetos em que elas não enxerguem um retorno financeiro. Não apostam mais. Por isso, é fundamental que os novos escritores tenham em mente que é preciso investir em estratégias que possam lhes colocar em contato com seus leitores. E percebam que esse é um processo de médio a longo prazo. É preciso ter paciência.

PANORAMA DA ESCRITA: Muitos autores ainda acreditam que agente literário serve apenas para “mandar original para editora”. No seu modelo de atuação, qual é a real diferença entre ter um agente comum e ter você como parceiro estratégico?

Fabio Rejgen: Você falou algo que é exatamente como eu me enxergo: um parceiro estratégico do autor. Um agente comum está preocupado somente em fazer o “meio de campo” entre o autor e a editora. Minha preocupação vai muito além disso. São muitas conversas, trocamos inúmeras ideias. O livro pode virar um filme? Um game? Uma peça de teatro? Minha função é trabalhar, junto com o autor, o seu produto e a sua imagem para que possa ser percebido pelos leitores e, consequentemente, pelas editoras também.

PANORAMA DA ESCRITA: Vimos no seu site que escritor não pode depender de sorte, mas de estratégia. Como funciona, na prática, esse planejamento de carreira que você desenvolve com seus autores?

Fabio Rejgen: É exatamente isso! O fator sorte não pode ser levado em consideração. Sem utilização de estratégias direcionadas aos objetivos o autor vai nadar e morrer na praia. Eu ofereço um projeto com estratégias que podem ser utilizadas individualmente, mas funcionam muito melhor juntas, potencializando imensamente a possibilidade de sucesso.

PANORAMA DA ESCRITA: Hoje vemos muitos escritores investindo em publicação independente, mas poucos pensando em posicionamento de marca pessoal. Como você transforma um autor em ativo de mercado e não apenas em alguém que lançou um livro?

Fabio Rejgen: As estratégias que são utilizadas visam muito mais do que somente lançar um livro. Existe toda uma preocupação e um planejamento formatado para que o autor possa ser percebido como alguém proeminente, cujo textos, ideias e opiniões precisem ser considerados, fortificando a marca do escritor como um autor relevante.

PANORAMA DA ESCRITA: Qual a vantagem de um escritor com agente literário e um sem agente?

Fabio Rejgen: Existe uma frase que eu gosto muito: “Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado”. Um ditado que provavelmente aparece como sendo da Clarice Lispector. Por isso, um escritor sem um agente literário pode até conseguir algum resultado rápido, como uma quantidade boa de vendas em um lançamento, por exemplo, mas provavelmente será algo que irá diminuir até perder sua força, tão rapidamente quanto foi seu alcance de vendas preliminar. Com um agente ao seu lado, as possibilidades de utilização de ações se multiplicam, tendo como consequência uma maior possibilidade de posicionamento da marca como autor em um mercado altamente competitivo, e maiores e consistentes vendas de livros.

PANORAMA DA ESCRITA: Muitos escritores têm medo de perder controle ao ter um agente. Como você garante transparência, alinhamento e crescimento conjunto dentro da parceria?

Fabio Rejgen: Um contrato justo e bem feito entre as partes resolve todos esses medos.

PANORAMA DA ESCRITA: No mercado editorial brasileiro, quais são os erros mais comuns que impedem um autor talentoso de prosperar financeiramente. E como um agente experiente pode evitar esses erros?

Fabio Rejgen: O maior erro que um autor pode cometer é achar que o seu livro vai se vender sozinho. Não vai. Quem não é visto não é lembrado. É como a história do ovo da pata e o ovo da galinha. O ovo da pata possui muito mais propriedades saudáveis do que o ovo da galinha. Mas então, por que o ovo da galinha é o mais vendido? E eu respondo: você já viu a estratégia que a galinha usa? Ela grita sem parar ao botar um ovo, algo que a pata não faz. E essa é exatamente a função de um agente: saber utilizar as estratégias certas para o escritor poder aparecer e se destacar em um mercado tão acirrado.

PANORAMA DA ESCRITA: Você trabalha com a ideia de carreira de longo prazo. Como é o plano típico de 3 a 7 anos para um autor que quer sair do anonimato e viver de escrita?

Fabio Rejgen: O autor escreve um livro. Ele geralmente vai no caminho da Amazon. O mundo atual permite essa facilidade. Mas só isso não basta. Um autor precisa saber utilizar as estratégias corretas de divulgação da sua obra. Precisa ter seu livro lido e avaliado, pois as pessoas hoje em dia são guiadas basicamente por avaliações dos produtos. Precisa trabalhar as suas mídias sociais, fundamentais nos dias de hoje. Tenho um grande amigo, um gênio do mercado editorial, chamado Guilherme Tolomei, que sempre diz: “o Instagram é a TV de cada pessoa”. E é isso. Hoje em dia a tecnologia permite que você se divulgue! Então, ao passo que os autores começam a ter engajamento em suas mídias sociais, passam a ser mais conhecidos e o boca a boca começa a acontecer naturalmente. Muitos autores me procuram querendo sucesso imediato. E eu sou sempre muito sincero e transparente: a não ser que um anjo passe e diga “amém”, esse sucesso não vai acontecer de pronto. Não adianta um autor escrever um livro e querer que as coisas aconteçam no tempo que ele deseja. É um processo de médio a longo prazo. Que pode levar alguns anos. Exige investimento, suor e trabalho. Muito trabalho. É preciso ter paciência. Mas essa é minha função. E estou aberto a conhecer qualquer obra de autores que queiram cescer no mercado.

redação

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