por Ângelo Cláudio
A peça “O sonho de um homem ridículo” pertence a uma espécie mais rara de encenação: continua dentro do espectador mesmo quando termina. Saí do teatro com a impressão de ainda estar preso àquela atmosfera, ouvindo mentalmente a voz de Murici Lima e reorganizando as perguntas que Dostoiévski lançou há quase 150 anos. A peça acaba no palco, mas demora a nos deixar.
O texto acompanha um homem que se considera ridículo e chega ao ponto de decidir pela própria morte. Antes de executar seu plano, adormece e tem um sonho perturbador: é conduzido a um mundo aparentemente puro, habitado por pessoas que desconhecem a mentira, a inveja e a violência. Sua presença, porém, introduz a corrupção naquele paraíso. Ao despertar, ele já não é o mesmo.
Nas mãos erradas, esse material poderia resultar em uma sucessão pesada de ideias filosóficas. Mas não. Vemos o pensamento ganha carne, respiração e movimento A adaptação preserva a densidade de Dostoiévski sem tratar o escritor como uma relíquia intocável. Seu protagonista chega ao palco vivo e perigosamente (ou sedutoramente) próximo de nós.
Murici Lima realiza uma interpretação extraordinária. Há domínio técnico e, principalmente entrega emocional. Seu trabalho corporal impressiona desde os primeiros minutos. O corpo parece reagir antes mesmo que as palavras encontrem uma forma: contrai-se, desequilibra-se, procura abrigo e, em certos momentos, dá a sensação de que vai romper.
A tonalidade de sua voz merece atenção de destaque. Murici sabe quando baixar o volume e obrigar a plateia a se aproximar, quando deixar uma frase suspensa e quando projetar a palavra com violência. Em um monólogo, qualquer imprecisão se torna visível. Murici sustenta sozinho a atenção do público porque compreende o ritmo interior de cada passagem. É uma atuação fisicamente exigente. Cada gesto está ligado a uma ideia e cada mudança vocal corresponde a um deslocamento emocional.
Já a iluminação de João Gioia funciona como uma personagem da peça. Ela observa, ameaça, aprisiona e, por vezes, parece julgar o protagonista. A luz não serve somente para tornar o ator visível. Interfere diretamente na percepção do espaço e modifica o sentido das palavras. Há momentos em que Murici parece comprimido por ela. Em outros, a claridade abre uma fresta, como se uma possibilidade de redenção finalmente pudesse entrar.
Outro ponto de destaque, é a cenografia de Luísa Cruz que cria um ambiente claustrofóbico, adequado à mente de um homem encurralado por si mesmo. Os livros espalhados são como testemunhas do desespero. Aliás, não há excesso de elementos nem qualquer tentativa de ilustrar literalmente o universo de Dostoiévski. A cenografia constrói uma verdadeira prisão mental.
Por fim, vale destacar o trabalho do diretor Anderson Rosa. Ele orquestrou o espetáculo com segurança e inteligência. Seu mérito central está em fazer todos os elementos juntos. Atuação, movimento, luz, cenário, figurino e som obedecem à mesma lógica, sem que uma área tente disputar atenção com as demais. As transições foram pensadas com especial cuidado. Funcionam como intervalos entre blocos de texto, na realidade, fazem parte do percurso psicológico da personagem. A passagem entre o homem que deseja morrer e aquele que retorna do sonho disposto a anunciar sua descoberta acontece gradualmente, sem soluções fáceis.
A montagem nasce de uma tradução de Dmitri Ivanov, cedida pela Editora Fradique, responsável pela edição brasileira da obra que deu origem ao espetáculo. A Fradique ocupa hoje um lugar relevante entre as editoras brasileiras dedicadas aos clássicos.
Seria um desperdício cultural permitir que um trabalho desse nível tivesse uma temporada curta ou circulação restrita. “O sonho de um homem ridículo” precisa viajar pelo Brasil, ocupar teatros públicos, centros culturais, festivais, universidades e projetos de formação de plateia. É um espetáculo acessível sem simplificar Dostoiévski, sofisticado sem se fechar em códigos para iniciados.
Em um país sério, esta montagem teria vários patrocinadores, longa temporada e atenção constante das instituições culturais. Poder público, empresas e gestores de equipamentos deveriam enxergar o que está diante deles: uma obra artisticamente madura, capaz de formar público, estimular a leitura e provocar debates sobre solidão, desesperança e convivência.
Autoria: F. Dostoiévski
Tradução: Dmitri Ivanov (cedida pela Editora Fradique)
Atuação e idealização: Murici Lima
Direção: Anderson Rosa
Assistência de direção: Rafa Borges
Direção de movimento: Mari Amorim
Iluminação: João Gioia
Operação de luz: Vanessa Miranda
Cenografia: Luísa Cruz
Assistência de cenografia: Roberta Serra
Figurino: Paloma Atanes
Maquiagem: Livia Kapps
Edição e mixagem de som: Pedro Flores
Operação de som: Rafa Borges
Design gráfico, fotografia e redes sociais: Bianca Oliveira
Gestão de tráfego de mídia: Igor Oliveira
Assessoria de imprensa: Sandra Alencar
Assistente de produção: Davy Albert
Direção de produção: Christiano Nascimento
Uma produção de Murici Lima sob gestão da Art Hunter Produções Artísticas Ltda.
Por Ângelo Cláudio Há clubes de leitura que funcionam como uma lista mensal de tarefas.…
A disputa entre livro impresso, e-book e audiolivro costuma consumir muito tempo do mercado editorial.…
O Prêmio Sesc de Literatura anunciou os vencedores de sua edição de 2026 com um…
Em 14 de agosto, um grupo de autores de livros didáticos liderado por Michael Sullivan…
Por Carol Vargas Peixoto O lançamento da Last Press on the Left, novo selo editorial…
Guilherme Tolomei, um dos nomes mais inventivos do mercado editorial, nos conta um pouca de…