ENTREVISTA

Entrevista com Daniella Riet, editora da Pallas

Daniella Riet é uma das responsáveis pela Pallas, uma editora com mais de 50 anos de história no mercado editorial brasileiro. A Pallas é reconhecida por sua atuação na valorização da diversidade cultural, religiosidade, saberes tradicionais e produção literária com forte representatividade afro-brasileira, indígena e acadêmica. Em tempos de reconfiguração do mercado editorial e ampliação do debate sobre inclusão, Dani traz uma visão sólida sobre o papel das editoras independentes e os desafios do setor.

Gabriel Mendes : Queria saber o que você está achando dos seus dias na Bienal do Livro do Rio. Como está sendo o movimento para você e para a Pallas?

Daniella Riet: Bom dia. A Pallas, como uma editora com mais de 50 anos de história, já percorreu uma longa jornada. E, para ser honesta, estamos surpresos com o movimento desde o primeiro dia. Ontem, por exemplo, tivemos lotação máxima — os ingressos chegaram a esgotar. Está sendo uma experiência muito positiva em termos de público.

Gabriel Mendes: A Palas é muito reconhecida por seu catálogo voltado à representatividade e à bibliodiversidade. Como você percebe a aceitação dessas obras por parte do grande público?

Daniella Riet: Cada vez mais, vemos que esse tipo de literatura, inclusive a acadêmica, vem sendo mais procurada. No início, a Palas publicava principalmente obras ligadas às crenças e práticas religiosas. Naquela época, não havia tantos livros acadêmicos sobre cultura afro-brasileira. Mas, com o avanço dos estudos nas universidades e a lei 11.645 que obriga o ensino da história da cultura africana e indígena nas escolas, essa demanda se tornou natural. As pessoas vêm até nós buscando esse tipo de conteúdo.

Gabriel Mendes: E como a editora se relaciona com escolas e instituições de ensino? Existem parcerias?

Daniella Riet: Sim. Professores nos procuram bastante, tanto de escolas quanto de universidades. Participamos de eventos literários, feiras e ações acadêmicas. A Pallas vem buscando se aproximar ainda mais das escolas — tanto públicas quanto particulares. A área escolar ainda é pouco explorada por nós, mas estamos investindo mais nisso. Parcerias como a da Árvore de Livros, que oferece livros digitais e um grande acervo para escolas e agora começa a trabalhar também com impressos, são exemplos de iniciativas que estamos acompanhando de perto.

Gabriel Mendes: Recentemente, o governo federal anunciou o PNLD Equidade. Como essas vendas governamentais impactam o trabalho da Palas?

Daniella Riet: Participamos do PNLD desde sempre. Ele é fundamental, especialmente para editoras independentes como a nossa, que publicam obras especializadas e culturais — muitas vezes fora do mainstream. O PNLD viabiliza tanto o retorno do investimento, que é alto, quanto a chegada desses livros às mãos dos alunos. 

No entanto, o problema é que o PNLD não é uma política de Estado. Ou seja, ele não está previsto no orçamento federal. Isso torna tudo imprevisível: os processos se estendem por mais de dois anos e, muitas vezes, são adiados por falta de verba. E ainda temos que investir antecipadamente em versões digitais dos livros, sem garantia de aprovação. É uma situação instável, mas ninguém deixa de participar, porque é uma política essencial. O que queremos é que ela passe a ser uma política de Estado, com orçamento garantido.

Gabriel Mendes: E para o escritor que já trabalha com temas ligados à diversidade e às pautas de minorias, como ele pode se aproximar da Pallas e, eventualmente, ser publicado?

Daniella Riet: O primeiro passo é sempre pesquisar o catálogo da editora. Isso vale para qualquer editora. É importante entender se o seu livro tem conexão com o perfil da casa. A Palas é uma editora pequena, mesmo com seus 50 anos de existência. Não temos muitos braços para avaliar originais com a agilidade que gostaríamos. Mas estamos abertos. A pessoa pode enviar um e-mail para nosso contato geral manifestando interesse e, se possível, anexar o original. A gente tenta responder na medida do possível. Inclusive, estamos planejando um canal específico para recebimento de originais. No momento, temos livros contratados até 2027, então nossa fila está cheia. Mas isso não impede o envio. Só pedimos paciência, porque estamos realmente sobrecarregados.


GABRIEL MENDES (Entrevistador): Vocês também fazem parcerias com Secretaria de Educação também?

Daniella Riet: Não existe uma parceria. A gente procura, né? A gente está sempre antenado, ligado aos editais específicos, porque as editoras não têm exatamente como fazer uma parceria com secretarias. As secretarias é que têm que abrir a porta, têm que dar a chance da gente expor o nosso trabalho, expor as nossas publicações. Então, assim, há sempre a possibilidade. A gente já fornece com alguma frequência para a Prefeitura de Belo Horizonte, porque eles abrem editais de abastecimento de livros para as escolas de ensino médio e fundamental.

Infelizmente, São Paulo tinha uma frequência e nos últimos dois anos não está comprando nada. Rio de Janeiro, há muitos anos não compra nada. Foi lamentável ouvir na abertura da Bienal alguém da secretaria — não me lembro exatamente, mas não foi o secretário, mas foi alguém que faz parte da Secretaria de Educação — dizendo que investiram alguns milhões em compras de livro. E a gente ficou se perguntando com quem eles compraram esses livros, porque a gente faz parte de um grupo de editoras independentes, mais de 100 editoras, e a gente desconhece isso.

Então, realmente, é um desejo. É um desejo porque as prefeituras têm uma verba local. A PNLD é um programa federal, mas a gente certamente poderia estar fornecendo para as secretarias de educação de vários municípios. Mas, infelizmente, a gente fica dependendo dessa chance da vida deles.

Infelizmente, no Brasil, a gente está repetindo isso, parece uma ladainha, mas é verdade. A cultura e a educação não são prioridades. Tem muito pouco investimento, muito pouca verba dedicada para isso. A gente só lamenta, mas não está deixando de fazer a nossa parte. A gente corre atrás, procura saber, faz proposições. A gente está sempre procurando uma chance de conversar e trabalhar em parceria.

No Rio de Janeiro, a gente tinha no calendário, permanentemente, todo ano, a Primavera dos Livros, que é um evento de editoras também, como a Bienal, mas muito menor, com uma organização que é a LIBRE, que é a Liga de Editoras Brasileiras. E essa liga tem editoras no Brasil todo, mas a gente faz a Primavera no Rio, faz a Primavera em Belo Horizonte, que teve recentemente, e em São Paulo.

E editoras de todos os estados participam, na medida do possível, porque é um investimento, obviamente, e a gente depende muito de patrocínio. Só que, no ano passado, a Prefeitura do Rio, em cima da hora, cancelou o patrocínio do evento. O evento dependia disso para acontecer.

Então, você vê, sendo a capital mundial do livro, desde o ano passado já se sabia. Então, por que a prefeitura, no ano passado, cancelou o patrocínio para acontecer a Primavera? Pela primeira vez em muitos anos, a Primavera do Rio, que é a pioneira nesse tipo de evento — depois vieram São Paulo e Belo Horizonte — infelizmente a Primavera do Rio deixou de acontecer, pela primeira vez.

A gente, geralmente, faz ela no Museu da República, no Jardim do Museu da República, e infelizmente não aconteceu. Então, é isso, a gente corre atrás. Nesse ano, mais uma vez, estamos buscando patrocínio. A gente espera que, dessa vez, a prefeitura participe, porque, senão, acho que isso seria um tiro no pé deles, porque eles estão falando muito nesse selo, nessa honraria. Então, acho que tem que acontecer. A Primavera do Rio tem que acontecer, sim.

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