ENTREVISTA

“Com qualidade e presença, o escritor consegue abrir portas no mercado”

Raquel Cozer é uma das figuras mais respeitadas do mercado editorial brasileiro. Atuou como editora na HarperCollins Brasil, é jornalista com vasta experiência e atualmente dedica-se também à escrita de roteiros e atualmente está produzindo a biografia da escritora Lygia Fagundes Telles. Nesta entrevista, Raquel compartilha suas impressões sobre a Bienal do Livro e reflexões sobre o mercado editorial, formação de leitores e a profissão de escritor no Brasil.

Gabriel Mendes: Você considera que um autor precisa fazer o quê para se destacar num mercado tão competitivo como esse?

Olha, é engraçado poruqe tem muitos autores que rejeitam a ideia de que o escritor tem que fazer outra coisa além de escrever. Mas a verdade é que essa é uma visão antiga. Tem uma série de coisas que os bons autores fazem além de escrever bem. Acho que tem que conseguir entrar no meio, por exemplo, fazer cursos para conhecer pessoas.

Existe muita crítica em relação a isso, mas é muito comum editoras contratarem autores por indicação. Não precisa ser uma indicação de uma pessoa muito famosa, mas os editores recebem muito conteúdo por e-mail ou pelas redes sociais, são abordados o tempo inteiro. Então, se alguém fala: “Olha, fulano escreveu um livro, é bom, vale você dar uma olhada”, o editor já tem esse filtro.

Outro caminho, o mais básico hoje no Brasil, seria tentar um agente, mas até os agentes estão sobrecarregados e não podem parar pra olhar tantos autores. Então, fazer networking, estar nos lugares, é importante. Também é essencial ler o que os outros estão fazendo, porque a gente fica muito preocupado com a própria obra e não entende o que está sendo feito ao redor. Requer esforço.

Gabriel Mendes: Hoje é possível um autor viver da renda dos livros?

Olha, é muito difícil. Claro que temos casos incríveis. Um dos maiores best-sellers do Brasil hoje, o Raphael Montes, trabalha com TV e audiovisual. A Thalita Rebouças também vende os direitos dos livros dela para o audiovisual. Então, acho que é possível viver da escrita, mas não necessariamente da venda de livros. Dá para viver do ecossistema da escrita: fazer leitura crítica, trabalhar com edição, tradução, participar de eventos que remuneram… Isso sim. Mas viver apenas de direitos autorais, mesmo a Lygia Fagundes Telles não conseguiu — e estamos falando de uma das maiores escritoras que tivemos.

Gabriel Mendes: E em relação ao mercado de e-books e audiolivros? Como você vê esse cenário para as editoras?

Hoje em dia, o e-book já está consolidado no planejamento das editoras. Houve um tempo em que algumas não produziam, e livrarias ficavam incomodadas, mas agora está claro que um formato não interfere no outro. Quem lê, lê em todos os formatos.

Já o audiolivro ainda está em crescimento, como os podcasts cresceram muito há alguns anos. Ele ainda é caro de produzir e demora para dar retorno, por isso nem todas as editoras conseguem oferecer ainda. Mas será um caminho cada vez mais comum e deve crescer.

Gabriel Mendes: Mesmo com os altos custos, muitas editoras continuam vindo à Bienal. Vale a pena estar aqui?

Eu vi uma curiosidade esse ano, que a DarkSide está pela primeira vez na Bienal, né? Eu achei interessantíssimo. Eu acho que é um trabalho de marca muito importante. Eu acho que já foi um tempo em que as editoras, elas falavam assim, saí da Bienal, não me paguei ou quase me paguei.

O que eu tenho visto nos últimos anos são as editoras grandes, pelo menos o que elas dizem, é que está se pagando. Confesso que eu não sei o resultado para as editoras menores. Mas no geral é uma presença de marca muito importante e, além disso, está trazendo faturamento.

Gabriel Mendes: As grandes editoras ainda estão procurando autores com milhares de seguidores ou há espaço para outros perfis?

Depende da editora. Varia muito. Algumas, como a Companhia das Letras, ainda contratam livros de autores sem nenhum engajamento nas redes, se acharem o conteúdo bom. Claro que autores com engajamento chamam atenção e ajuda, mas isso não garante venda.

 Já vimos isso na época em que youtubers lançavam livros que não vendiam, porque o público deles não estava interessado nesse formato. Então é claro que a editora deseja trazer alguém com alto engajamento, mas a pessoa tem que ter um conteúdo bom pra mostrar.

Gabriel Mendes: Para finalizar: qual conselho você daria a escritores iniciantes que querem se destacar?

Antes de tudo, preocupe-se com a qualidade do texto. Ou seja, mostre para muita gente — amigos, leitores beta, profissionais pagos. Veja se o livro está bom, o que pode melhorar.

É como se arrumar antes de sair de casa. Esteja com uma roupa bonita antes de sair de casa. Depois disso, esteja presente. Participe dos espaços, conheça pessoas, troque experiências. Lembro da Iris Figueiredo, autora juvenil do selo Seguinte. Ela conta a história belíssima que ela tinha uma editora pequena e ficava na porta da editora convencendo as pessoas a lerem os livros dela. E hoje é uma autora bestseller. É um trabalho difícil, mas precisa de consistência.

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