Nesta entrevista exclusiva, temos a honra de conversar com Mônica Antunes, agente literária responsável por representar um dos autores mais influentes da literatura contemporânea: Paulo Coelho.
Fundadora da Sant Jordi Associados, agência com sede em Barcelona, Mônica é muito mais do que uma profissional de contratos e direitos autorais — ela é parte essencial da construção de um dos maiores fenômenos literários globais de todos os tempos.
Ela construiu uma trajetória marcada por paixão, perseverança e foco absoluto em espalhar a mensagem do “alquimista das palavras” para o mundo. Mônica se tornou uma das vozes mais respeitadas do mercado editorial brasileiro e internacional.
Com mais de 30 anos de trabalho em parceria com o autor, as obras de Paulo Coelho já venderam mais de 320 milhões de exemplares em 89 idiomas, tornando-o um autor best-seller sem precedentes.
Gabriel: Você acha que se repetisse exatamente o que foi feito em relação às estratégias para promover as obras do Paulo naquela época, se fizesse hoje, os resultados seriam muito diferentes ou ainda teriam grandes chances de sucesso?
Mônica: Olha, eu nem entendo essa história de estratégia. Você vai fazendo coisas à medida que as oportunidades vão aparecendo. “Ah, o Paulo tem uma excelente agência de marketing por detrás.” Mas isso nunca existiu. Eu nunca fui uma operadora de marketing.
Ele é um artista. Ele não é um marqueteiro. Isso não tem estratégia. Ele queria ser escritor desde que nasceu. Eu chamo de inspiração.
E finalmente escreveu um livro, depois de percorrer o Caminho de Santiago. Ele colocou a alma dele para divulgar. Se ele tivesse que conversar com você, com a Mônica, com a mulher ali na rua, ele ia conversar. Porque ele colocou 100% da sua alma ali.
O Paulo participava de entrevistas de rádio. Mas veja, ele já tinha um nome no Brasil, um dos letristas mais importantes do país. Compôs com Elis Regina, Rita Lee, Raul Seixas. Quando ele publicou o Diário do Mago, ele já tinha uma plataforma.
Tanto que o problema para o Paulo foi maior com “O Alquimista”, que é o segundo livro. O primeiro as pessoas leram de braços abertos. Raul Seixas é uma das figuras mais importantes da música brasileira. O Paulo fez quase todas as letras com ele. Quando lançou o Diário do Mago, as pessoas foram ler. “Pô, o Paulinho escreveu um livro, né?”
Mas com “O Alquimista”, o segundo livro, já teve uma certa resistência. Então o segundo teve que seguir um outro caminho. Mas o Paulo colocou a alma dele. A gente foi fazendo à medida que as oportunidades surgiam.
O importante é a paixão, é acreditar e ser sincero. Você tem que ser muito honesto com as coisas e ir fazendo. E aí tem um componente que as pessoas acabam recomendando.
Hoje fui a uma palestra maravilhosa. Tenho um déficit da produção literária brasileira, dos nomes, da música, teatro, enfim. São 36 anos que moro fora. Agora estou vindo mais ao Brasil, mas por muitos anos só vinha uma vez ao ano, por três semanas. Então perdi um pouco esse marco. E voltando a conferência, o Jessé Andarilho estava dizendo a mesma coisa: ao invés de ficar reclamando, vá lá e faça um público. Faça uma audiência. Em todos os sentidos, vá abrir suas oportunidades. E o Paulo fez isso. Ele abriu as oportunidades para ele.
Gabriel: Perfeito. E naquela época, vocês foram bater de livraria em livraria. Com o digital hoje, isso acaba perdendo seu valor?
Mônica: Ah, estou aqui na feira da Bienal! Como é que você vai dizer isso? Estou aqui na feira, estou falando com as pessoas. O contato físico com as pessoas é importantíssimo. A gente está numa feira por isso. A feira existe e ela é maior do que há 30 anos atrás.
Mas a conexão é sempre importante. O Paulo veio à Bienal de 1991. E em outras quando já era um sucesso gigantesco. Ou seja, o Paulo ajudou a crescer essa feira. Trouxe leitores à feira, as pessoas tinham essa conexão.
A conexão é importantíssima. Se você tiver a oportunidade de falar com o livreiro, meu Deus, vá falar com o livreiro. Vá falar com o seu leitor. Sim, o digital fala, mas eu não sei até que ponto isso substitui. A não ser que você seja um grande criador de conteúdo.
Eu venho aqui, vou a Frankfurt há mais de 30 anos. Vou à Feira de Londres. Enfim, você precisa disso. Fazer os contatos e as conexões. O contato pessoal é uma necessidade. E os leitores adoram ter essa proximidade com o autor também.
Gabriel: Como criar essa conexão com o leitor? Precisa participar dos grandes eventos?
Mônica: Eu já fui à conferência em que o Paulo falou para quatro pessoas. Tudo tem um processo de crescimento. Uma semente tem que crescer. Nenhuma árvore já nasce grande. Essa árvore foi regada, alimentada, protegida. Você tem que proteger o seu projeto. Ninguém começa com um projeto grande.
Veja a história do Dan Brown. Foram vários livros que ninguém leu até que veio “O Código Da Vinci” e as pessoas finalmente adoraram. É assim mesmo, as coisas crescem no tempo
certo. Então vá no seu bairro. Depois vá em outro bairro. Vá em outra livraria. Construa. Porque aqui numa feira grande pode ser mais difícil. Tem que se fazer visível.
Gabriel: Quais virtudes um escritor precisa desenvolver para conquistar seu espaço?
Mônica: Como qualquer coisa na vida, você tem que ser o que você é. Se você se sente escritor, se na sua alma você é um escritor, você vai botar tudo ali. Você está vestindo a camisa? Porque precisa ser aquilo que você sente. Se você sente, você tem que ir atrás, como qualquer profissão.
Se você sente que é médico, tem que estudar pra caramba. Ninguém vai te dar um diploma de medicina. É a mesma coisa para ser escritor. Você pode ir às bibliotecas do seu bairro, apresentar seu livro, participar de eventos. Vai batendo de porta em porta.
Olha que engraçado, tenho um amigo que vai inaugurar uma exposição de pintura. A primeira exposição dele. Ele está se sentindo como se tivesse acertado na loteria. Lógico que primeiro tem que pintar, né? Pra ser artista sem pintar, aí é demais. (Risos) E no final, abriu uma porta. Se aquilo vai crescer, você não sabe.
A gente sabia que o Paulo ia crescer? Alguém poderia saber? Nem ele, nem eu. Eu podia ter uma convicção que O Alquimista e o Diário de um Mago são livros fundamentais e que provocam uma reação no leitor. E, como eu acreditava, eu apresentava sim.
Gabriel: Então o seu entusiasmo foi determinante para convencer as pessoas?
Mônica: Sim. Em parte. As pessoas davam uma chance. Se elas não gostassem, elas não iriam publicar… O editor publica porque acredita. Mas meu entusiasmo chamava atenção das pessoas.
Teve um meio de comunicação em Madrid, o jornalista pela minha insistência publicou uma resenha de O Alquimista que acabava de sair na Espanha e que era promissor.
E aí o Paulo em 1990 começa a vender muito no Brasil, também lança Brida. Em 1991, ele tem três livros nas listas de mais vendidos. Em 1992, ele já é o segundo escritor mais vendido na América Latina publicado pela Unesco— depois de García Márquez.
Isso tudo aconteceu em poucos anos, um fenômeno. Na Bienal que ele participou ficou até perigoso, não dava pra andar. Os corredores ficaram congestionados. Era uma sessão de autógrafos gigantesca, nunca tinha acontecido algo naquela proporção. E a partir daí, a Bienal entendeu que era possível fazer sessões gigantescas. Mas ninguém previa isso. Ninguém sabia que viriam tantas pessoas.
Esse jornalista que comentei da Espanha depois virou diretor do jornal. Uns anos depois de O Alquimista estourar na Europa, ele me ligou lembrando a história. Então, pra deixar claro, o
meu entusiasmo tocou em algumas portas simplesmente, mas a qualidade da obra e do Paulo fizeram o resto. O sucesso é do Paulo! A gente é ferramenta.
O sucesso é do “O Alquimista”. É o livro que conquistou o planeta. São 89 idiomas.
Como disse o diretor da Feira de Frankfurt: “Não tem outro autor que a gente possa dizer que seja bestseller global”, e não é global porque vendeu 400 milhões de cópias num mercado. É global porque é um fenômeno de vendas na Argentina, México, Colômbia, Paraguai, China, Mongólia, Estados Unidos, Uruguai, no Brasil…Enfim, em todos os lugares.
Gabriel: E quais são os melhores argumentos de venda na hora do pitch para uma editora?
Mônica: Você vende emoção. Não é fórmula pragmática. Você recomenda uma série não porque tem pontos pragmáticos, você vai recomendar porque te emocionou. Você recomenda as emoções que foram despertadas em você. Pode ser até um thriller, terror, 50 Tons de Cinza — seja o que for — as pessoas convencem pela emoção. Isso é o que funciona. O livro é uma emoção.
Gabriel: Faz muito sentido. Mas na hora de se apresentar, o Paulo Coelho se posicionava como um autor de espiritualidade ou como contador de boas histórias?
Mônica: Ele sempre foi um autor conectado com o mágico, com o simbólico. O próprio título “Diário de um Mago” já mostra isso. O Paulo sempre esteve ligado ao mundo mágico, ao mundo espiritual. Mas isso não é uma construção estratégica — é o que ele é. A Christina (Esposa do Paulo Coelho) também é assim. Eles estão conectados com essa dimensão espiritual mágica em cada minuto da vida deles.
O livro se chama “Diário de um Mago”, depois “O Alquimista”… essas dimensões espirituais sempre estiveram aí. É como a música “Gita” — “eu nasci há 10 mil anos atrás” — quer dizer sobre a eternidade. As suas obras são expressões de quem ele é.
Por isso, ele conta isso nos livros, como “As Valquírias”, em “O Aleph”. Às vezes ele vai pelo caminho certo, às vezes pelo errado, mas é sempre guiado pelo caminho espiritual. Você pode dizer a ele que vai ganhar um prêmio, não importa o que. Se ele sentir que o caminho dele aponta para um outro lugar, é isso que ele vai seguir.
Ele vive essa escolha. E sempre foi assim, desde o começo. Se você fizer um estudo desde os primeiros livros, você verá isso.
A vida é o que você vive a cada dia. E o Paulo vive os livros dele. Ele não escreve ficção apenas. Ele comunga com essa dimensão espiritual.
Gabriel: E com relação a paciência para esperar o tempo da colheita? Vocês ansiavam muito pelos resultados futuros ou focaram mais no presente?
Mônica: O Paulo vive o presente. Ele vive no agora. O que está fazendo, está fazendo de corpo inteiro. Mas ele também é um agricultor. Ele planta. Ele escreve disso em “Brida”: os construtores e os agricultores. Ele é agricultor. Planta e cuida. Agora, se vai vir uma seca? Se a plantação vai crescer? Isso a gente não sabe. Não sabemos as consequências das coisas. Mas ele continua plantando. Por isso, ter perseverança é fundamental.
Gabriel: Como você vê a importância de um agente literário na carreira de um escritor? Você acha que isso é um divisor de águas?
Mônica: O divisor de águas é você ter uma audiência, não é ter um agente literário. O agente literário pode ser sua audiência. Eu sou a audiência do Paulo. Eu fiquei encantada, fiquei enamorada com sua obra. Um dos livros mais importantes do mundo. Tinha certeza que esse livro faria bem às pessoas, no sentido de ser um catalisador. Da mesma forma que eu vivi isso com uma imensa paixão, eu achava que as pessoas iam ler com a mesma paixão.
O agente literário pode recomendar a obra. Ele vai contribuir com sua experiência, sabe de contratos, conhece pessoas da indústria editorial.
Mas no fim das contas, você precisa ter a sua audiência. Não começa com o agente literário.
Gabriel: O Paulo escrevia pensando em tocar seu leitor, ou era mais uma necessidade pessoal de colocar algo para fora, e a recepção do leitor era apenas consequência?
Mônica: Você tem entrevistas disponíveis com o Paulo. Eu não posso responder sobre ele. Mas o Paulo sempre se considerou um escritor. Desde o dia em que ele fez a primeira redação na escola primária e ganhou um concurso. Ele queria ser escritor a vida toda.
Mas, ele só publicou o primeiro livro com 38 anos, porque antes viveu outras coisas, passou por outras etapas. Mas não deixa de ser uma criação artística e literária. No caso do Paulo, ele é autor de ficção. Ele prioriza o ser humano. É um humanista. Dentro do que é escrever, há milhões de caminhos. Não adianta você escrever porque é um tema que está “em alta”. Você precisa sentir intimamente o que quer expressar pro mundo.
Gabriel: E para um escritor brasileiro que está seguindo sua “lenda pessoal”, mas ainda não consegue viver da escrita? Você acha que ele deve continuar trabalhando com outras coisas para manter o sonho vivo ou deveria se jogar de cabeça na escrita?
Mônica: Cada um sabe da sua vida. Cada um tem sua lenda pessoal. Não dá para generalizar. Cada um sabe qual é a sua. Não existe isso.
Gabriel: E você, na sua lenda pessoal, se jogou de cabeça? Ou precisou equilibrar com outras demandas profissionais?
Mônica: Eu estudei. Fiz dois anos de desenho entre 1989 e 1991, na Espanha combinando com pequenos trabalhos. Depois voltei para a faculdade de engenharia. Na época da Feira de livros nos EUA, coincidia com as provas finais. Então, por dois anos, tive que negociar para fazer as provas quando voltasse da feira. Não dava para estar em dois lugares.
Terminei a faculdade em 1994. Mas em 1994 eu já estava totalmente dentro da profissão de agente literário.
Gabriel: E esse aparente “conflito” entre sua carreira como agente e suas obrigações nos estudos era pacificado dentro de você?
Mônica: Sim, era pacificado. Eu sabia que tinha que estudar mesmo. Mas eu me lembro de uma ocasião, juntamente com o Paulo e a Christina, eu conheci o grande arquiteto Oscar Niemeyer, e durante a conversa, eu disse: “Poxa, estudei engenharia durante cinco anos…Eu deveria ter estudado Direito porque eu passo o dia fazendo contratos.”
Eu argumentei dizendo que se eu tivesse estudado Direito, especialmente internacional e autoral, teria me ajudado muito.
Mas aí ele me olhou e disse: “Não, Mônica! Você estudou a coisa certa. O engenheiro aprende a projetar. E você projeta as coisas.”
Ou seja, a vida é uma incógnita. É possível que eu tenha usado mais da engenharia pra projetar uma agência literária do que se tivesse estudado Direito.
Ele me disse: “Advogado você contrata!” (Risos)
Inclusive, uma vez conversei com um super advogado americano. E contei algo parecido para ele sobre as escolhas de ter seguido a engenharia e não ter feito Direito. Sendo que naquela época eu já tinha assinado dois mil contratos. E o direito poderia ter me ajudado.
Daí ele me disse: “Mônica, você sabe mais de direito autoral do que a maioria dos advogados que eu conheço — e olha que eu sou advogado.”
Então, a vida vai te dando as ferramentas e você precisa saber usar. Mas é isso: ao mesmo tempo você tem que comer, viver… Tem que pagar as contas, a luz, a água, faz parte.
Gabriel: E você teria alguma sugestão/dica para um escritor que busca internacionalizar suas obras?
Mônica: Não. Eu não tenho dicas. Acho que a pessoa tem que sair em busca dos seus leitores. O Jessé que conheci hoje na Bienal, por exemplo, foi convidado para fazer uma visita ao Japão, no início do ano. O cara saiu de uma favela e na palestra dele comentou que por mais difícil que tenha sido sua origem, ele não deu desculpas, está achando formas de criar sua audiência a cada dia. Ele é muito profissional, mas ainda não li o livro dele, comprei hoje.
Gabriel: Você falou de projetar, mas será que pra conseguir projetar, primeiro não precisa planejar estrategicamente?
Mônica: Eu vejo as coisas diferentes. Um engenheiro não pode querer botar o telhado se ainda não construiu os pilares da base. A casa vai cair. Te dou certeza disso. E ainda vai matar quem estiver embaixo e o cara ainda vai ser preso. Primeiro, faz o cimento. Se não conseguiu fazer o cimento ainda, esquece o teto. Se você não tem base, esquece o telhado. Faça primeiro a sua base.
É necessário ir pouco a pouco: 1,2,3,4,5,6…Existe uma ordem, mas pode ser que depois do número 120, você consiga dar um salto quantitativo para o 440. Porque você atingiu uma base e entrou no crescimento exponencial. Mas se nem o 120 você tem, fica difícil.
Ou seja, não adianta pensar em telhado, telha amarela, preta, não sei o quê e não ter nem comprado o terreno. Repito: Vamos pouco a pouco nas coisas. Quer muito algo? Então vai fazendo aos poucos.
Gabriel: Sobre o mais recente lançamento do “Arqueiro”, há uma sábia lição sobre a hora de soltar a flecha e aguardar com paz no coração. Como você interpreta essa questão de saber a hora de agir e de esperar?
Mônica: Eu não posso responder pelo Paulo, eu sou a Mônica.
Gabriel: Mas e dentro do seu trabalho como agente?
Mônica: Ué, é sempre um risco. Quando você solta a flecha, é um risco. Você pode acertar o alvo ou você pode errar. Às vezes você erra, depois você acerta. Mas tem uma coisa, como é que você vai ter certeza que errou ou acertou? Você não sabe tudo que aquela ação gerou. Mas se você escolheu um caminho, o caminho é aquele. Não tem como saber como seria no outro.
Ah, mas se você não tivesse feito isso, talvez teria sido melhor? Pode ser. Como é que a gente vai saber? Não tem como ter certeza. A vida não tem como saber.
Gabriel: E hoje você consegue perceber quando aquela é uma boa oportunidade ou quando é um “problema” disfarçado de oportunidade?
Mônica: Acho que todo mundo sabe. Você não quis café. Eu queria café. Para mim o café era bom. Para você a água era melhor. É assim na vida. Por exemplo, eu decidi estudar Engenharia. No início, eu achava que era um erro não ter estudado direito. Porque tive que me esforçar para compreender aquilo. Durante muito tempo achei que tinha escolhido errado minha graduação, depois percebi que me agregou muito na minha carreira. O que fez tá feito. São nossas escolhas.
Eu acho que as pessoas têm que se alegrar nas decisões delas também. Agora eu acho que uma coisa é básica, como meu amigo que vai fazer essa exposição dele lá em Barcelona na
sexta-feira pela primeira vez numa galeria. Faça sua parte e pinte! Se você não tem quadro, não tem exposição, não adianta. Isso é uma coisa bem pragmática.
Ou seja, a pessoa quer uma exposição, já está falando com a galerista, mas ainda nem começou a pintar o quadro. Percebe? Você nunca vai saber quando e onde a porta vai se abrir, então esteja preparado e faça a sua parte.
Gabriel: Isso se aplica aos autores iniciantes que querem se tornar grandes?
Mônica: Hoje em dia, se você me permite da parte digital, eu acho que mais pessoas podem ler. Existem muitas comunidades de livros. Como no caso do…Cinquenta tons de cinza. Uma comunidade de livros de romance que lia juntos, as pessoas gostavam, e, de repente, todo mundo está falando desse livro. Tinham vários livros de romance mas todo mundo começou a falar desse livro.
Então, as plataformas digitais permitem que você tenha um cara lá do Alasca e outro de Miami que estejam lendo a mesma coisa. Agora, ninguém vai obrigar o cara do Alasca ou de Miami a gostarem da mesma coisa. De repente, as pessoas todas falavam desse livro dentro de uma comunidade digital, que era grátis. Era lá que publicavam os capítulos.
Então, a comunidade digital te permite crescer uma voz. E isso, antigamente, não te permitia. Era mais difícil, obviamente. Antigamente, se você escrevia mas não fosse publicado por uma editora, como é que as pessoas teriam acesso a seus textos?
Então você tinha que tentar uma espaço na coluna de jornal, você precisaria batalhar e ser um colunista e publicar um artigo de vez em quando, que era o que o pessoal fazia. Naquela época, você não podia ter uma pessoa no Acre e uma pessoa no Rio Grande do Sul lendo o seu texto no mesmo instante e opinando.
Gabriel: Verdade, mas ao mesmo tempo, atualmente não tem mais gente escrevendo do que lendo também?
Mônica: Não sei. Acho que, de certa forma, existe uma cultura maior da literatura, da leitura e da escrita. É mais acessível. Hoje em dia eu te mando um WhatsApp ou escrevo um texto e digo Gabriel, o que você acha? Você acha que tem graça?
Hoje em dia é mais fácil, num certo sentido. Você consegue construir essas comunidades. Talvez a gente não saiba utilizar bem as ferramentas que tem. Eu lembro que antes era carta. Essa dificuldade talvez impedisse as pessoas de escreverem mais.
Gabriel: Aqui no “Panorama da Escrita”, a maioria das pessoas que acompanham são escritores, mas tem pessoas que querem também trabalhar dentro do mercado editorial, então, você poderia falar um pouco mais de como é a rotina de um agente literário?
Mônica: O agente literário representa uma obra. Ele pode representar o escritor, se o escritor faz palestras, teatro, cursos, ou seja, representa em termos gerais de todas suas produções artísticas.
Mas se ele representa uma obra, o agente vai buscar o melhor daquela obra e que aquela obra tenha a maior repercussão, o maior acesso possível. Então o trabalho de um agente literário é representar uma propriedade intelectual.
Gabriel: Então seria um dia preenchido de reuniões, é um trabalho muito burocrático? Analisando contratos o dia todo?
Mônica: Eu acho que cada agente tem sua rotina. No meu caso, eu represento o Paulo. A obra do Paulo. Não é o caso de ter dezenas de autores. Mas eu imagino — não sou eles — que outros agentes leem muitos manuscritos para selecionar o que querem representar. E a partir daí, eles pensam: esse livro pode ir pra tal editora, esse pra outra. As editoras gostam de agentes porque é uma pré-seleção e é difícil ler tantos manuscritos não solicitados. Então o agente funciona como um filtro.
Agora, é o filtro perfeito? Claro que não. Uma obra muito boa pode ser perdida porque um agente não gostou. Mas é um trabalho importante, porque ajuda o escritor. O artista não sabe tudo. Ter um apoio, uma pessoa ao lado é muito legal. Com o Paulo, a gente foi aprendendo juntos também.
Gabriel: Eu vejo que no Brasil, tem poucas agências literárias e essas poucas agências têm dezenas, até centenas de autores. Você acha que o fato de você ter focado em um único autor e ter seguido até hoje, esse foco te ajudou a ter maiores resultados?
Mônica: Cada história é uma história. A minha história era representar o Paulo. Eu não queria ser uma agente literária com centenas de autores. Eu queria que a obra do Paulo fosse lida em todo mundo. A missão da minha agência literária sempre foi representar os direitos do Paulo Coelho. Mas todas as agências são importantes. Cada uma tem sua missão com a literatura — seja representar a literatura espanhola, latinoamericana, americana, a literatura de thriller, romântico…Cada uma segue a sua lenda pessoal e vão focar nisso.
E sobre seu questionamento em relação ao foco, eu acho que ajudou sim. Eu estou conversando com você sobre o Paulo. Eu acho que focar é uma coisa importante. Mas volto a dizer: eu acho que todas as agências literárias importam e cada uma possui seu foco.
Gabriel: Eu confesso que eu conheci mesmo as obras do Paulo Coelho 4 anos atrás quando eu li O Alquimista, aos 25 anos, e minha vida se transformou. Por isso, eu sinto que talvez para um jovem que está terminando o ensino médio, poderia ser um grande portal, sabe? Porque é um momento de profundas escolhas na vida dele. Como você trabalha essa questão da obra do Paulo nas escolas ou vender para as Secretarias de Educação?
Mônica: Aqui, eu não conheço a política educacional, exatamente. E eu não sei os critérios. Mas os livros do Paulo são recomendados nos Estados Unidos em todo o ensino médio, na França, na Polônia e em outros países. Mas existe um lado bom que as vendas acontecem espontaneamente.
Claro que eu gostaria de ver todo estudante com seus 16, 17 anos lendo “O Alquimista”. Concordo com você. É um livro transformador. Mas, de certa forma, são livros que sempre acabam chegando às mãos das pessoas. O responsável de vendas da Companhia das Letras me falou ontem: “Muitos jovens compraram O Alquimista na Bienal, jovens com 16 anos.” Ele não esperava e ficou surpreso porque achava que o público comprador seriam leitores de 30 anos pra cima. Obviamente eu quero ver os livros nas mãos dos jovens brasileiros, mas cada país tem suas políticas e felizmente o Paulo vendeu 10 milhões de exemplares no Brasil com o pessoal indo comprar nas livrarias, ou em bancas de jornal.
Gabriel: Há pessoas que falam sobre “auto-ajuda” de forma pejorativa, mas eu enxergo que se um livro realmente ajuda uma pessoa a crescer, a evoluir, tudo bem se for chamado de “autoajuda, “desenvolvimento pessoal”, isso não é o que mais importa. Porém como é que você enxerga essa questão de algumas pessoas classificarem as obras do Paulo como “autoajuda”?
Mônica: Eu não sei quem classifica as obras do Paulo como “autoajuda”. Leitor é leitor. Você é um leitor. Se você quer achar que o Paulo fala sobre viagens, porque os livros se passam em outros lugares, é seu direito. Ou considerar como aventura. Inclusive, O Alquimista recentemente foi considerado o livro de aventuras mais importante — esqueci por quem. Cada um classifica do seu jeito.
Autobiográfico? Talvez o Diário de um Mago não deixa de ser biográfico, enfim…Mas se taxarem como “thriller”, acho que aí seria exagero. (Risos)
Gabriel: E você tem uma classificação predileta? Ou prefere não rotular?
Mônica: Literatura, claro. Alta literatura! Alguns são não ficção, porque o Paulo tem mais de 20 livros escritos. Mas a grande maioria é ficção. Literatura que toca novas pessoas todos os dias.
Nenhum livro dele vai te dizer: “Beba 4 copos de água de manhã para limpar o fígado e depois senta para meditar com a luz do sol, e você terá a purificação.”
Ele não diz o que as pessoas têm que fazer. Não são livros de respostas, são livros de perguntas. Perguntas que ele tem para ele mesmo.
Gabriel:: Você sente que o fato das histórias serem também em contextos internacionais, e não no Brasil, isso contribui para promover a obra no exterior? Ou poderia se passar no Brasil e pela qualidade literária teria a mesma abertura em outro países?
Mônica: Eu acho que é indiferente. Nunca teve um componente realmente local. O Diário de um Mago, sim, faz o Caminho de Santiago, mas as pessoas podem nunca ter feito o Caminho de Santiago e elas sentem que fizeram o Caminho. É uma ligação mais interna.
E como comunica com o ser humano, o leitor que conhece o Caminho de Kumano no Japão, ou o Caminho Sao Olav na Noruega, sentem as mesmas coisas. Ou seja, ele comunica uma coisa inerente ao ser humano.
O Paulo é um escritor brasileiro, completamente brasileiro. Quando escreveu seus primeiros livros, ele estava aqui no Rio de Janeiro, em Copacabana. Ele estava em contato com as pessoas daqui, em contato com tudo, com o que acontecia na televisão, na rua, na música. Enfim, ele tem esse espírito brasileiro também muito amplo, amplo de alma.
Para você ter ideia, no livro O Alquimista, já vi leitores mulçumanos dizerem pro Paulo: Você entendeu a essência do Islã. É impressionante mesmo, sabe?
Gabriel: Mônica, muito obrigado por compartilhar tanta coisa boa. Não sei se tem alguma pergunta que eu não fiz e que você gostaria de abordar.
Mônica: Eu gostaria que você seguisse adiante. Que as pessoas seguissem adiante com a história delas. Não com a história de outras coisas. Busca a sua própria história. E eu acho que é muito importante as pessoas quererem compartilhar a alma delas. De ter a experiência de tentar tocar o coração das outras pessoas de alguma forma, isso é muito especial. É legal você querer compartilhar sua voz e colocar esse grãozinho no mundo para ver como cresce.
