Os cursos voltados para a carreira de escritores movimentam hoje um mercado gigantesco no Brasil. Nesse cenário, nomes como Dany Sakugawa, Flavia Iriarte, Lilian Cardoso e Arnaldo Neto se destacam como referências. Em entrevista exclusiva ao Panorama da Escrita, Dany ressalta uma realidade que todo autor precisa encarar: escrever um bom livro já não basta.
No novo cenário editorial brasileiro, quem deseja viver da escrita precisa agir como empreendedor, entender os bastidores do mercado e desenvolver estratégias para além da página. Como conquistar leitores fiéis? Como chamar a atenção das editoras? E, sobretudo, como transformar um livro em fonte de renda consistente, mesmo sem chegar ao topo das listas de mais vendidos?
Criadora do método The Book Business e ex-editora de grandes casas, Dany Sakugawa compartilha nesta entrevista exclusiva táticas para que escritores transformem suas obras em verdadeiras oportunidades de negócio.
Gabriel: Eu queria que você compartilhasse quais são as estratégias mais eficientes para o escritor vender livros e conquistar boa visibilidade?
Dany: A minha resposta não é tão direta, Gabriel. Para cada autor existe um caminho ideal, porque o sucesso da divulgação depende muito do ponto forte de cada um. Não adianta pedir a alguém que não entende nada de ads para criar uma campanha; mesmo que contrate uma agência, ele não saberá avaliar métricas. Também não adianta exigir que uma pessoa introvertida grave vídeos para a internet. A melhor estratégia é a que conecta o ponto forte de comunicação do autor ao interesse do público-alvo.
Não adianta escrever um livro denso sobre a Segunda Guerra Mundial e tentar promovê-lo no TikTok, cuja audiência está muito mais ligada em atualidades. Para história, o YouTube, com vídeos mais longos, faz muito mais sentido. Em resumo, a melhor forma de vender e divulgar um livro é explorar os pontos fortes do autor em convergência com os interesses do leitor.
Outro exemplo: se o autor não se comunica bem no “um a um”, fazer de eventos presenciais seu principal canal de vendas não funcionará.
Gabriel: Então o autor tem que buscar primeiro seu autoconhecimento, não é?
Dany: Com certeza. O autor tem dois lados: o escritor, que cria a obra, e o empreendedor, que precisa colocá-la no mercado. Esse lado empreendedor exige uma caixa de ferramentas diferente da escrita. O autoconhecimento é fundamental para extrair o melhor do “empreendedor” que existe nele. Não é obrigatório gravar vídeos, participar de eventos ou abordar influenciadores; mas, se ele não se conhecer, não avançará.
Gabriel: Conversei com pessoas do mercado, na Bienal, sobre os critérios que as editoras consideram para aceitar um autor. Quase todos falaram da importância de criar uma base de leitores. Quais canais você considera mais promissores para o autor criar essa base?
Dany: De novo, depende de onde o autor tem afinidade e consegue produzir conteúdo autêntico. Muitos constroem sua base por meio de newsletters; outros, com palestras ou contação de histórias.
Recentemente perguntei a uma grande editora que perfil de autor infantil interessava a eles. Responderam que preferem quem já faz trabalho em escolas. Cada editora tem sua preferência, mas, em geral, tudo passa por ter uma plataforma — não necessariamente on-line: pode ser a escola ou o meio corporativo.
Tenho o exemplo de uma autora que construiu um trabalho corporativo forte: no lançamento ela já tinha seis ou sete palestras marcadas. Dessas palestras, 20 % a 25 % da audiência comprou o livro. Para a editora, isso é uma base. Editoras que não cobram para publicar precisam de segurança de que o livro terá público; isso depende não só do tema, mas da força inicial do autor.
O potencial de vendas é a soma da qualidade do conteúdo com o público já preparado para ele. Veja o polêmico caso dos livros de colorir sem autor: funcionam porque existe demanda. Em fantasia também há público cativo; por isso editoras apostam em estreantes sem plataforma. Sempre há dois cenários: ou a editora precisa muito da audiência do autor, ou já tem público interno esperando.
Construir uma plataforma própria nunca é ruim — é como fazer exercício: quase sempre faz bem. Serve para atrair editoras e para o próprio autor vender livros diretamente.
Gabriel: Você citou que uma certa editora prefere autores com entrada em escolas, algo que se parece com o caso de alguns escritores que seguem o Panorama da Escrita. Como transformar isso em argumento para uma editora?
Dany: Esse autor talvez ainda não tenha uma base organizada, mas já possui o canal. Isso conta bastante. Se quiser montar um tour de lançamento em escolas, não começará do zero; já tem por onde começar. Para muitas editoras, o fato de o autor ter portas abertas transmite segurança de que o livro terá saída.
Editoras que não cobram para publicar precisam alcançar rapidamente o ponto de equilíbrio. Se investem, por exemplo, cinquenta mil reais — somando produção gráfica, profissionais, papel, revisão, capa e encargos trabalhistas — querem recuperar o valor o quanto antes. Quando o autor já tem canais de ativação, o risco diminui. A venda em livrarias sozinha não sustenta um lançamento; é crucial que o autor ative seu próprio público, algo que também é do interesse dele.
Gabriel: Como você acha que um autor pode alcançar uma editora de maior relevância hoje mesmo sem ter um agente literário?
Dany: Eu acho que sim. Vamos organizar aqui em três pontos principais.
O primeiro ponto importante é ter uma produção editorial profissional. Então, o autor terminou de escrever? Procure um leitor crítico que já tenha trabalhado com grandes editoras. Não adianta buscar no Google ou encontrar alguém no Instagram sem verificar o histórico dessa pessoa. É essencial que esse leitor crítico já tenha passado por títulos que foram publicados por editoras relevantes.
Ou seja, a primeira coisa é que o livro esteja realmente pronto. Muitas vezes o autor termina de escrever e acha que está pronto, mas o “pronto” dele é diferente do pronto profissional. Por isso, o primeiro passo é passar por uma leitura crítica feita por um profissional experiente.
O segundo ponto é justamente ter essa plataforma — uma base mínima — para compor bons argumentos de venda para apresentar à editora. Porque, querendo ou não, quando o autor apresenta seu livro a uma editora, ele precisa levar bons argumentos. E, muitas vezes, o que os autores levam não são argumentos, são autoelogios. E isso é um cuidado que se deve ter: argumento de venda é completamente diferente de autoelogio.
Quais são os argumentos de venda? Quem fez a leitura crítica? Você tem um bom prefácio? Qual é sua plataforma de autor? Isso tudo entra nessa categoria. Aliás, vou reorganizar aqui: o primeiro ponto é a leitura crítica, e o segundo são bons argumentos — dentro dos quais estão todos esses aspectos que eu mencionei.
O terceiro ponto é entender e seguir o processo da editora. Tem editora que pede de um jeito A, tem editora que pede do jeito B, e tem editora que pede do jeito C. O autor que não segue esse processo já chega, para a editora, como alguém que não consegue cumprir uma orientação simples.
O que acontece com frequência é aquele disparo em massa: o autor pega uma lista com 50, 100 editoras e só troca o nome na saudação. “Prezado Editora A, enviar.” Depois: “Prezado Editora B, enviar.” Não funciona assim. É essencial respeitar o processo de avaliação das editoras — da forma como elas pedem os livros, no tempo que elas estabelecem e no formato que elas solicitam.
Algumas editoras têm formulários próprios. Outras pedem book proposal. Quando eu trabalhava em editora, recebia muito livro físico. E, sinceramente, é bem ruim avaliar um livro físico. É melhor receber um material digital, lógico, mais fácil de ler, de grifar, de devolver com considerações. Enfim, é importante seguir o processo que a editora pede.
E aí eu acrescentaria um quarto ponto, que melhora muito as chances do autor: fazer a lição de casa.
Sabe quando você vai se preparar para uma entrevista de emprego e chega sem estudar a empresa? Muitos autores fazem exatamente isso. Então, prepare-se. Faça sua lição de casa. Estude a editora. Veja se ela está lançando títulos comparáveis ao seu. Veja se ela publica autores nacionais. Veja se ela atende às suas expectativas.
Às vezes, por exemplo, o autor sonha em estar na Bienal do Livro de São Paulo, ou na Bienal do Rio. Mas aquela editora nem participa desses eventos — e ele nem sabe. Por isso, é fundamental estudar antes, para saber se aquela editora faz sentido, se existe um “fit” entre o seu livro e o catálogo da casa.
Acho que esses quatro pontos são os mais importantes para um autor aumentar suas chances de ser aprovado: leitura crítica profissional, bons argumentos de venda (e não apenas autoelogios), seguir o processo de envio da editora e estudar a editora como se estivesse se preparando para uma entrevista de emprego.
Gabriel: E como você já trabalhou na área editorial, talvez seja interessante você falar sobre isso. Quais elementos você acha que são essenciais para um book proposal se tornar imbatível? O que não pode faltar?
Dany: Bons argumentos de venda. Quando digo bons argumentos, me refiro ao que já falamos antes: evitar autoelogios e focar em elementos racionais.
Então, quem fez sua leitura crítica? Você pode incluir um trecho dessa leitura. Qual o tamanho da sua base? O que você está disposto a fazer pelo livro? Esses são os tipos de argumentos que mostram: “Além de o meu livro ser bom, aqui está o que eu fiz e o que eu estou disposto a fazer por ele.”
Eu já vi muitos book proposal que eram 100% baseados em autoelogios. Aí complica. “Uma história inédita, incrível, que vai levar o leitor a um mundo que ele nunca imaginou.” Baseado em quê? “Ah, foi o leitor crítico que falou isso.” Ok, aí faz sentido. Mas, quando vemos um book proposal sustentado apenas por adjetivos vazios, percebemos que aquela pessoa não se preparou. Ela está encantada pelo próprio livro e com uma abordagem emocional demais. Não está tratando o livro como um produto que vai passar pelo crivo de outras pessoas.
Outro ponto que considero fundamental é o autor explicar por que ele é a melhor pessoa para escrever aquele livro.
Por exemplo: vamos imaginar que você escreveu uma distopia sobre um regime autoritário. Por que você é a pessoa certa para contar essa história? Porque é estudante de História? Porque desde os 12 anos lê distopias? Porque é formado em Filosofia? Porque viveu num ambiente autoritário? Traga isso.
O autor, às vezes, se encanta pela história — e pode ser, de fato, uma boa história, uma boa ideia. Mas ter uma ideia é uma coisa. Transformar essa ideia numa narrativa envolvente exige vivência, repertório. Por isso, explicar por que você é a pessoa ideal para contar aquela história costuma chamar a atenção das editoras.
Elas não querem só mais uma fantasia, só mais um suspense, só mais um policial. Recentemente trabalhei num projeto de um escritor que escreve suspense policial — e ele é delegado. Poxa, que legal. Ele tem vivência prática, percebe?
Gabriel: É importante demonstrar que já tem uma experiência direta, né?
Dany: Exato. E isso mostra para a editora que ele fala com propriedade. E, veja bem, muitos autores fazem um trabalho de pesquisa muito bom. Essa pesquisa também gera autoridade. Mas, se sua base for a vivência, traga essa vivência. Se for a pesquisa, argumente com profundidade. Assim, a editora entende: “Sim, essa pessoa é a ideal para contar essa história.”
Gabriel: Então, você diria que o book proposal é uma linguagem mais racional e pragmática do que para algo emocional?
Dany: Com certeza. A construção de um book proposal muito emocional já revela, para quem faz a triagem, que o autor está apaixonado pela ideia — e isso pode ser um ponto cego.
Eu acredito fortemente que quem deve escrever o book proposal não é o escritor-artista. É o escritor-empreendedor. Se fôssemos separar o lado esquerdo e o lado direito do cérebro do autor, o proposal deve vir mais do lado empreendedor e não tão artístico.
Gabriel: Você acha que o autor deve seguir um mesmo gênero literário para consolidar o seu posicionamento? Ou é mais importante ele criar boas histórias, independentemente do gênero?
Dany: Eu acho que trabalhar dentro do mesmo gênero facilita. O que eu acredito é que o autor precisa encontrar a sua própria identidade. E, às vezes, essa identidade vai se expressar por meio de um livro infantil, outras vezes por meio de um romance. Ele precisa ter essa identidade muito clara, isso, pra mim, é essencial.
Agora, não há problema nenhum em variar entre gêneros. O que eu estou dizendo é que, sim, facilita quando você mantém uma linha mais coesa. Por que facilita? Porque, se você trabalha num gênero específico — como o infantil, por exemplo — e depois resolve migrar para o romance, pode ser que a mesma editora não te publique. Pode ser que o mesmo público não te acompanhe.
A gente tem que pensar na questão da praticidade. Se você já construiu uma plataforma de livro infantil, com uma audiência formada por pais, professores, educadores… e, de repente, você vai para o romance, não é a mesma base. Não é o mesmo público. Então, cuidar de uma audiência já dá trabalho. Imagina cuidar de duas.
Agora, quando o escritor tem uma identidade muito bem definida, quando ele tem uma linha muito clara e marcada, as coisas fluem. E veja o caso do Itamar Vieira Junior, que lançou o “Chupim”, um livro infantil. A identidade dele está ali. A estética dele, a narrativa, continuam muito reconhecíveis. Então, se essa identidade estiver clara — se o coração do autor estiver presente e visível na obra —, não vejo problema algum em variar de gênero.
O que o autor precisa ter em mente é que cuidar de uma audiência exige trabalho. Cuidar de duas, exige mais ainda. Então, pode não ser a decisão mais estratégica. Mas, claro, é possível fazer sucesso em mais de uma.
Gabriel: Uma vez, num podcast, eu ouvi você comentando que um livro que se torna um grande sucesso geralmente tem, se não me engano, três características. Você pode falar melhor sobre esses elementos que compõem um Best-Seller?
Dany: Eu não diria exatamente um “best-seller”, porque o best-seller entra muito no campo de performance de venda. Vamos chamar de “livro que faz muito sucesso com o público”. Esse tipo de livro, Gabriel, geralmente tem pelo menos um de três elementos — e, às vezes, tem mais de um.
O primeiro é: ele ensina uma nova habilidade para a pessoa.
O segundo: ele instala um novo hábito na vida dela.
O terceiro: ele apresenta uma nova forma de ver o mundo.
Ou seja, ou é uma habilidade, ou é um hábito, ou é uma nova lente sobre a realidade. E quando a gente analisa os grandes sucessos editoriais, isso aparece com muita clareza.
Vamos pegar livros de colorir, por exemplo. Por que eles fizeram tanto sucesso? É a questão do hábito. 100% hábito. Agora, pense nos devocionais, que têm vendido muito bem. Os devocionais reúnem os três elementos: têm o hábito, porque a pessoa estabelece uma rotina de leitura e reflexão; têm a habilidade, pois ela está aprendendo mais sobre a Bíblia e a palavra de “Deus”; mas têm também uma nova forma de ver o mundo, porque ela passa a refletir sobre valores, relações e espiritualidade.
Se você pega Star Wars, ou Guerra dos Tronos, ou até histórias em quadrinhos, muitos desses livros oferecem uma nova forma de ver o mundo. Mesmo na fantasia ou na ficção científica, isso está presente.
Na minha experiência, é muito difícil um livro que realmente faz sucesso não ter, pelo menos, um desses três elementos bem trabalhados. Eu, inclusive, procuro isso. Quando vejo um livro novo subindo nas listas, me pergunto: qual desses três ele está entregando?
Gabriel: Você acha que os autores escrevem pensando nesses três fatores? Ou isso acaba surgindo naturalmente?
Dany: Eu acho que pouquíssima gente pensa assim. Pra ser honesta, nunca vi ninguém falando sobre isso da forma que estou te explicando agora. Talvez alguns autores façam isso intuitivamente. Talvez meus alunos estejam começando a pensar assim, porque eu insisto muito nisso: “tem que ter intencionalidade na escrita”.
Mas, sinceramente, se existe por aí essa mesma lógica aplicada de forma consciente, eu ainda não a encontrei. E veja, não estou dizendo que eu inventei isso. Só nunca vi ninguém verbalizando dessa forma.
Quando o escritor aplica isso, o impacto no leitor é muito maior. Porque o leitor sente. E um livro que a gente termina de ler, que a gente indica para outras pessoas, que nos prende até o fim, é aquele que nos transforma de algum modo.
Quando o livro ensina uma habilidade, o leitor sente que cresceu. Sai melhor do que entrou.
Quando instala um hábito, o leitor percebe uma mudança positiva na rotina.
E quando mostra um novo jeito de ver o mundo, o leitor se sente tocado intelectualmente ou emocionalmente.
O autor que consegue fazer isso com sensibilidade, com habilidade, marca a vida do leitor. E é isso que gera o boca a boca. A leitora sai dali transformada, emocionada, e quer falar disso com alguém. Isso não é o autor fazendo propaganda do próprio livro — é o leitor fazendo isso por ele.
Aí o livro não caminha mais sozinho. Você tem um exército de leitores carregando a sua bandeira. É assim que o sucesso se espalha.
Gabriel: A última pesquisa da CBL mostrou que mais de 50% dos livros vendidos no Brasil são comprados pelo governo. Muitos autores dizem que conseguem uma boa remuneração por meio dessas vendas institucionais. Como você acha que um autor pode conseguir vender livros para o governo, considerando que não é um processo simples?
Dany: Olha, Gabriel, quando a gente fala de venda para o governo, é fundamental aprender a ler editais. O autor precisa fazer a lição de casa.
Se você quer entrar no PNLD, por exemplo, precisa estudar as regras, entender quais livros passaram nas edições anteriores. Se você quer se inscrever em um edital municipal ou estadual, precisa verificar os regulamentos com atenção.
A venda para o governo pode parecer inacessível, mas não é. Existem espaços mais complexos e outros muito mais viáveis. Muitas prefeituras, por exemplo, fazem chamamentos públicos. Isso não é necessariamente um edital com ampla divulgação. Às vezes é algo mais informal, direcionado a uma demanda local.
Te dou um caso recente: um autor que escreveu um livro de poesia e é professor de literatura. Ele desenvolveu uma série de workshops de escrita criativa para professores da rede pública da cidade dele. O governo comprou uma quantidade modesta de livros, mas o foco principal foi o projeto educativo que ele entregou.
Então, a venda para o governo é um universo à parte. Vai além de simplesmente vender livro — envolve também projetos educacionais, oficinas, atividades culturais. Além disso, há leis de incentivo, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Rouanet. Existem várias possibilidades de captação.
O ponto principal é: sem fazer lição de casa, o autor não vai avançar. E mais importante: esse planejamento precisa ser feito antes da publicação do livro.
Por exemplo, se o livro tem uma cena mais picante, mais ousada, você pode esquecer: 95% dos editais vão barrar. Então, se o autor tem intenção de vender para o governo, ele precisa pensar nisso antes de o livro estar escrito e publicado. Depois é tarde demais para se adaptar aos critérios.
Gabriel: Você tinha comentado antes sobre as editoras prestadoras de serviço. Para o autor que não foi escolhido por uma editora tradicional e decide seguir por esse caminho, quais critérios ele deve observar para escolher uma boa prestadora?
Dany: Eu acho que o primeiro critério é ver o rastro dessa editora. E por “rastro” eu quero dizer: procurar no JusBrasil, procurar no Reclame Aqui. É literalmente dar um Google e sair olhando o que tem ali de histórico daquela editora. Porque muitas editoras, por prometerem muito mais do que entregam, acabam deixando um rastro negativo no mercado, tá?
E assim, esses dias eu estava fazendo uma sessão, e eu brinquei com uma autora: tem muitas editoras que estão aí, jogando valores como se fossem ciladas. E às vezes, Gabriel, tem cara de cilada, tem cheiro de cilada, e é provável que seja cilada. A autora brincou comigo: “Tá pastando, tem listra preta e branca… será que é uma zebra? Acho que é uma zebra, né?”
Então, às vezes a gente precisa mesmo olhar esses rastros.
Vamos lá: A primeira é: saia do seu estado emocional. Porque o autor, quando vai procurar uma editora, às vezes, quando recebe uma proposta, na emoção de ser “aprovado”, fecha logo. Então, para mim, a decisão de uma editora tem que ser racional, e não emocional. Primeira coisa: saia do estado emocional. Não aceite a primeira editora que aparecer.
Segunda coisa: veja o rastro — Reclame Aqui, internet, avaliações.
Terceira coisa: faça uma busca dessa editora nas livrarias que você gostaria de ver o seu livro. Se você faz questão de ter seu livro em aeroporto, se faz questão de ter seu livro na Livraria da Vila, se faz questão de ter o seu livro numa livraria de shopping… tem que ir lá e fazer uma pesquisa de campo. Porque muitas editoras dizem que “distribuem”, mas esse “distribuir” não é colocar o livro na prateleira, é apenas oferecer o livro. E oferecer o livro qualquer uma pode oferecer.
Agora, ter um relacionamento comercial com as livrarias que, de fato, transforme esse oferecimento numa positivação no ponto de venda — porque positivação é o livro estar de fato ali, à venda — isso é outra coisa. Então o terceiro ponto é: vá fazer uma pesquisa empírica nas livrarias, pra ver se, de fato, tem livro da editora lá ou não.
Eu acho que tem um quarto ponto, que é: conversar com autores que lançaram por lá. Precisa ver o nome de autores que lançaram por aquela editora, procurar esse pessoal no Instagram, mandar um direct, perguntar: “Você recomenda? Você não recomenda? O que você gostou? O que você não gostou?” Porque isso começa a te dar uma noção.
E não fazer isso só com uma pessoa. Fazer com várias pessoas. Porque às vezes você cruza com uma pessoa que está feliz, mas a régua dela é bem baixa— e a sua régua é muito acima. Aí ferrou. Uma pessoa mais exigente vai ter uma experiência completamente diferente de uma pessoa com menos exigência.
Então, é sempre bom conversar com várias pessoas. Porque, se você pergunta só para uma, que não é tão exigente, pode ser que você se engane. Pra aquela pessoa, a editora é nota 10. Mas, pra você, talvez a editora seja nota 6.
Então, acho que esses quatro pontos tiram bastante do risco de você cair numa editora prestadora que não é tão… justa, que não é tão honesta, que não está tão interessada no sucesso do seu livro, mas sim interessada em ter um catálogo cada vez maior — onde ela lucra com o autor, e não com o leitor.
Gabriel: Um dos destaques da Bienal foi o Raphael Montes, que se notabilizou bastante agora por adaptar seus livros para o audiovisual. Como os autores podem conseguir levar suas obras para plataformas como a Globoplay, HBO, Netflix, streaming em geral? Você tem alguma ideia?
Dany: Geralmente, um projeto de audiovisual vem depois de um sucesso comercial do livro físico. Eu acho que são poucos os projetos que fazem um caminho diferente disso aqui no Brasil.
Claro, existem muitos projetos que já nascem indo direto pro audiovisual. Mas eu não acredito que o autor deva “ir com tudo” para o audiovisual. Eu acho que o autor tem que ir com tudo para o livro dele.
Ele tem que tratar o audiovisual como uma possível consequência de um trabalho muito bem feito com o livro. Mas deixar o livro de lado para focar no audiovisual… Eu vejo muitos escritores dizendo: “Ah, terminei de escrever meu livro, agora quero transformá-lo em roteiro.” Ao invés disso, eu prefiro que ele trabalhe a divulgação do livro, conquiste uma boa editora, quem sabe um bom agente literário. Tudo isso vai encurtar a distância até o audiovisual.
Agora, simplesmente achar que o seu livro “dá um filme”, e sair batendo de porta em porta com um roteiro debaixo do braço, pode ser um caminho muito desgastante.
As produtoras, os agentes literários, as empresas de audiovisual — todos eles estão buscando livros que já passaram por um teste mínimo de mercado.
Você citou o Raphael Montes. Ele não começou no audiovisual. Ele começou com o livro, com o sucesso do livro, e aí isso gerou oportunidade de adaptação.
Gabriel: Muitos autores falam que há dificuldade de viver apenas da venda do livro, mas existe a possibilidade de ganhar dinheiro pelo ecossistema que se forma em torno dele. Como você acha que o escritor pode gerar uma renda passiva por meio das suas obras em outros formatos?
Dany: Eu não sei se “renda passiva” seria o nome certo para isso. Vai gerar uma renda, claro, mas a renda passiva é aquela que você não faz nada e a renda está lá. Mas, por exemplo, hoje em dia eu vejo muitos escritores se tornando tradutores, ghostwriters, roteiristas, leitores críticos, palestrantes, professores.
Então, por exemplo, tem uma escritora da nossa comunidade que escreve romance. Ela é uma pessoa super sensata, super estudada. Ela foi convidada por uma das maiores agências literárias do Brasil para se tornar leitora crítica deles. E hoje, uma leitura crítica está pagando para o leitor crítico R$ 1.500, R$ 2.000, dependendo do tamanho do livro. Quantos livros ela teria que vender para receber esse valor em direito autoral?
Muitas vezes, os escritores precisam entender quais são os seus pontos fortes para começarem a rentabilizar, para que o livro abra portas. Eu sempre digo que o livro não é fim, o livro é meio. O livro é meio para quê? Tem muitos casos também de autores que lançam livros porque querem sedimentar a sua autoridade para dar palestras. De novo, o livro não é fim, o livro é meio. Só que o autor precisa saber qual é o fim que ele quer atingir para ter intencionalidade ao construir aquilo.
Tem uma outra escritora que escreve romance jovem adulto, mas é roteirista da HBO. Ela sempre foi roteirista e depois começou a escrever livros. Qual é o ponto? O autor precisa estar antenado naquilo que tem como ponto forte, como habilidade, porque talvez o livro seja, na verdade, uma alavanca. Talvez o livro seja uma chave para abrir algumas portas. Eu já vi autores escreverem livros para abrir espaço em determinados mercados, para fazer transição de carreira. Já vi autores lançando livros para valorizar a própria empresa. Já lancei muitos livros de empresários, conselheiros, CEOs, que estavam em um movimento de valorização da marca da empresa ou da marca pessoal deles.
GABRIEL: E já para um autor um pouco mais consagrado, como é que ele pode transformar seus personagens, suas histórias, em produtos para vender? Como o Harry Potter, A Fantástica fábrica de Chocolate.
Dany: O autor que busca isso, eu sou muito a favor de ter uma parceria com um bom agente literário. Por quê? Às vezes o autor, ele vai para esse lado, ele meio que cobre a cabeça e descobre o pé. Então ele começa a fazer muito esse trabalho de licenciamento e ele esquece dos fãs, ele esquece dos livros, ele esquece da divulgação própria. Já um trabalho em parceria com agente literário, é uma dupla de criação, né? É o jogador e o técnico. Então eu tenho um pouco dessa visão. Ir para o mundo de licenciamento é um mundo gigantesco, mas como eu disse antes, às vezes o autor cobre a cabeça e descobre o pé fazendo isso.
Agora, para mim, o agenciamento é um caminho saudável para ver isso, mas, de verdade, dificilmente vai existir licenciamento se o livro não estiver bombado, entendeu? Então, por isso que eu acho: o trabalho do autor é trabalhar pelo livro dele. O resto vai ser uma consequência intencional, mas nunca deixe de lado o básico perfeito, o arroz com feijão, que é cuidar do seu próprio livro.
Gabriel: Tem um estudo recente da BookNielsen que demonstra que os livros de não ficção, negócios e autoajuda tiveram uma queda, enquanto os livros infantojuvenis e de ficção tiveram um crescimento. A que você atribui essa diferença, esse movimento? Você acha que é uma tendência futura?
Dany: Eu não sei se é uma tendência para o futuro, mas eu acho que o mercado editorial, assim como o mercado econômico e a política, é cíclico. Então a gente vai ter muito um reflexo da mídia, um reflexo dos influenciadores. Muito dessa variação eu atribuo aos influenciadores no TikTok. O TikTok veio e tomou um espaço muito grande na cabeça das pessoas. E os booktokers não estão divulgando tanto livro de carreira, de negócio.
O mercado de livros geralmente é um reflexo do comportamento das pessoas. Por que o livro de colorir explodiu tanto? Antes de ver um livro de colorir na livraria, eu via dez pessoas colorindo nas redes sociais. Então o reflexo da venda de livro, geralmente, vem de um comportamento da sociedade como um todo. Agora temos o boom dos devocionais. O comportamento do mercado editorial é um reflexo do comportamento do consumidor. O marketing de influência faz muita diferença.
Gabriel: Tem muitos autores que vivem exclusivamente da venda de e‑books na Amazon. Você acha que esse é um caminho que se abre para quem quer viver da própria escrita?
Dany: Eu acho que existem alguns gêneros literários que possibilitam isso. Quem escreve poesia, por exemplo, eu não vejo acontecer de forma tão rápida e simples. Agora, quem trabalha com romance hot acha muito mais acessível. Por quê? Imagine que você está trabalhando num livro e, no gráfico de pizza, o seu gênero tem 70 % do público lendo no físico e 30 % no digital. Se você lança só no digital, impacta 30 em vez de 100. Então você deixa de vender.
O autor precisa ter em mente que, por mais que publicar no digital seja menos custoso, ele tem que avaliar a força de acesso ao mercado que vai ter. Dei o exemplo da poesia porque muita gente que ganha dinheiro no Kindle Unlimited recebe por página lida. Poesia tem muito menos página lida do que romance hot ou romance contemporâneo.
Então é um caminho que pode fazer sentido se o autor estiver num nicho muito adaptado ao formato e‑book. Caso contrário, não. O escritor de livro infantil que quer basear sua receita em digital está num cenário complicado: primeiro porque o digital não adapta bem a ilustração, não tem o toque; segundo porque vemos um movimento de reduzir telas para crianças. Vou ler à noite com meu filho? Não vou pegar um e‑book.
Essa ideia de gerar receita apenas no digital faz sentido quando o mercado consumidor já está adaptado ao formato; caso contrário, é frustração certa.
