ENTREVISTA

Pequena editora com faturamento de mais de 1 milhão de reais,  investe 240 mil em estande na Bienal, e editor conta sua trajetória

Lucas de Lucca, fundador da Editora Flyve, é uma das vozes mais ousadas e inovadoras do mercado editorial independente no Brasil. Escritor, empreendedor e agitador cultural, Lucas transformou a necessidade em oportunidade ao criar uma editora, focado no fomento de novos autores com grande volume de novos títulos.

À frente da Flyve desde 2018, ele aposta em formatos alternativos, como selos de meta e modelos colaborativos, para publicar talentos emergentes. Nesta entrevista, ele compartilha os desafios, os diferenciais e as estratégias que transformaram a Flyve em uma referência para escritores iniciantes que sonham em publicar seus livros com qualidade e visibilidade.

Gabriel Mendes: Como surgiu a ideia de empreender com a Flyve?

Lucas de Lucca: No Brasil, ou você empreende por necessidade ou porque é herdeiro. No meu caso, foi por necessidade. Eu precisava fazer uma grana. Já conseguia tirar cerca de R$ 2 mil por mês com venda de livro, o que já é legal pra muito autor, mas não pagava meus boletos. Eu era independente, então conhecia gráfica boa, capistas, diagramadores, revisores, sabia fazer ISBN, tinha acesso a editais culturais… Então comecei a trabalhar com outros autores como se fosse uma prestadora de serviço.

O momento em que virou realmente uma editora foi quando recebi uns contratos de publicação e fiquei revoltado. Fiz um cálculo e vi que era uma mina de ouro pra editora, enquanto meus amigos iam entrar naquele modelo só porque tinham seguido “o caminho certo”. Resolvi criar meu próprio selo, parecido com aquele modelo, mas justo. Foi aí que nasceu o selo Voe, que é uma publicação tradicional baseada em metas. A partir disso, a Flyve começou a chamar atenção. Com o tempo, fomos obrigados a nos tornar uma editora tradicional, e hoje estamos muito perto de consolidar esse formato.

Gabriel Mendes: E quais são os diferenciais da Flyve hoje? Por exemplo, o que motiva um exército de autores estarem aqui no seu stande hoje?

Lucas de Lucca: Tem muitos motivos, mas acho que a nossa base cultural é muito diferente de qualquer outra casa editorial. Não é nem melhor nem pior, quer dizer, é melhor do que os sacanas, né? Essas editoras de autopublicação exploradoras.

A gente tem uma cultura na Flyve que é uma estratégia de fomento. Acho que somos a única editora do Brasil que funciona como uma editora de fomento. Não somos uma vanity press, nem uma tradicional clássica. Somos uma empresa com selos de publicação pensados a longo prazo.

O autor que publica com a gente, normalmente, está começando. Hoje temos alguns que já chegam maiores, mas a maioria entra no início da carreira. E eles enxergam que outros autores, que começaram um ou dois anos atrás e se desenvolveram, estão agora com lançamentos tradicionais, tiragens maiores, presença em livrarias. Isso mostra para eles até onde é possível chegar.

Como isso já acontece na prática, eles percebem o potencial. Isso é muito diferente das casas editoriais que dizem trabalhar com autor iniciante, mas que na verdade não investem em ninguém. A maioria só publica quem já chega com público formado.

Como a Flyve está nesse meio do caminho — é algo novo — isso gera nos autores essa vontade de crescer. Eles enxergam que podem obter retorno real.

É muito bacana abrir essa porta para o autor se provar. E, se ele se provar, ele escala, cresce. Estou muito contente. Já tem muitos anos que estamos na estrada, mas os últimos quatro anos foram muito transformadores. Conseguimos, de fato, transformar a vida de muita gente e provar que a nossa forma de fazer literatura funciona no Brasil.

Espero, sinceramente, que surjam mais estruturas de fomento como a nossa.

Gabriel Mendes: Então além de aproximar o escritor, vocês viram parceiros do modelo de negócio, né?

Lucas de Lucca:  Sim, a gente não só ganha dinheiro se vender o livro dele. Então, a gente é obrigado a fazer essa coisa acontecer. Tanto que o nosso time de comunicação, de marketing, é muito maior do que o nosso time de produção.

A gente não tem time de vendas. A gente tem uma pessoa que avalia originais, a Marina Solé Pagó, que é genial. Ela está fazendo doutorado em literatura agora. E é uma pessoa só. Porque o nosso investimento tem que ser na venda de livro. E a venda de livro, a gente confere na base da comunicação.

Gabriel Mendes: E como funciona o modelo dos selos?

Lucas de Lucca: Temos um selo pago, chamado Fly, que pretendo extinguir em breve por questão ideológica. Ele funciona a preço de custo e oferece 70% de royalties. A grana bruta fica com o autor, e realmente vale a pena pra algumas pessoas.

Nosso carro-chefe são os selos de fomento. O principal deles é o selo Voe. Nele, publicamos o autor com todos os custos pagos por nós antes de qualquer venda. A única exigência é que ele venda 50 exemplares para que possamos recuperar o investimento. Se não conseguir, ele pode pagar uma diferença com desconto no custo de impressão do livro, cerca de 40% do preço. Isso torna a publicação muito mais acessível do que fazer tudo sozinho ou com selo pago.

Como temos autores que já sustentam nossa estrutura, conseguimos manter um modelo profissional, mesmo com uma barreira de entrada baixa. Isso nos permite fomentar autores iniciantes com qualidade e continuidade. Temos também curadores parceiros, como o Salomão Curto Reis, a Mari Vieira e o Tiago Cabello — que ajudam a garantir bons livros sem precisarmos de uma equipe enorme de vendas, como acontece nas editoras.

Gabriel Mendes: Acredita que outros empreendedores podem ter sucesso no mercado editorial utilizando essa lógica inovadora de vocês?

Lucas de Lucca: Esse é um apelo que eu faço, de verdade. Se você tá pensando em abrir uma editora, abra! Copia os nossos selos. Funciona. Leva um tempo pras coisas engatarem, mas não vai te dar prejuízo.

Gabriel Mendes: E como você enxerga a importância da Bienal? Eu imagino que um estande grande como esse aqui deve ter sido um investimento bem alto.

Lucas de Lucca: Esse estande custou R$ 240 mil. Qualquer editor pequeno se assusta com esse número. Nossa primeira Bienal foi em São Paulo, em 2022, e gastamos R$ 18 mil. Mudou nossa vida. No ano seguinte, gastamos R$ 80 mil. Mudou nossa vida de novo. Em 2023, gastamos R$ 140 mil e, pela primeira vez, empatamos o investimento. Foi quando passamos a ser reconhecidos de outra forma pelo mercado.

Este ano viemos para consolidar nosso espaço e já planejamos dobrar de tamanho no estande em São Paulo. Vamos também participar da Flip e da Bienal de Pernambuco pela primeira vez, e começar a entrar em livrarias. Tudo isso é muito caro, mas sempre vale muito a pena.

A Bienal, sempre ajuda a gente a alavancar muito. É um risco que vale a pena. Mas demanda um trabalho honesto, um trabalho bem feito.

Gabriel Mendes: E se um escritor quiser publicar com vocês? Qual seria o caminho?

Lucas de Lucca: Temos uma plataforma de captação no site editoraflyve.com. É um formulário longo, mas serve como um book proposal. Também aceitamos originais enviados por praticamente todas as agências literárias ou diretamente por e-mail: publicacao@editoraflyve.com.br.

O que a Flyve ainda não publica bem são obras de não ficção e literatura infantil. Esses gêneros ainda não são nosso forte, então é bom que os autores saibam disso.

Gabriel Mendes:  Em relação aos autores da Flyve que mais se destacam, o que você percebe que eles fazem de diferente?

Lucas de Lucca: Para quem já está no mercado editorial minha resposta é muito óbvia, mas para quem enxerga com olhos sonhadores vai ser um soco no estômago. Os que se destacam se sacrificam pela sua literatura. Não só na FLYVE, mas em qualquer editora, inclusive Companhia e Record, os autores que sacrificam seu tempo, sua influência e seu dinheiro para chegar mais longe. Claro que existe um brilho especial que alguns têm, mas mesmo os com brilho apenas com muito sacrifício eles conquistam altos números. E esses sacrifícios valem a pena quando a editora na qual você está sente a pressão do seu esforço e soma contigo. É nesse momento que vira pro escritor.

Gabriel Mendes:  Você começou atuando com projetos culturais. Hoje, como enxerga as vendas para o governo? A Flyve participa de editais públicos ou PNLD?

Lucas de Lucca: Não participamos hoje de nenhum tipo de compra governamental, mas gostaria. Estamos buscando uma pessoa especializada em PNLD para comandar esse setor na editora. Parece que é só fazer, mas isso exige um altíssimo investimento de pessoal. Gostaria de entrar no PNLD e até estar em editais, mas hoje enxergo mais necessidade em distribuir em livrarias por uma questão estratégica e de marca.

Gabriel Mendes: Você mencionou que a Flyve começará a entrar em livrarias. Isso será feito diretamente ou por meio de distribuidoras?

Lucas de Lucca: Faremos um trabalho conjunto. Inicialmente faremos a distribuição por conta própria. Temos uma pessoa focada na equipe. Porém muitas livrarias preferem as distribuidoras e, portanto, estamos abertos a negociar quando chegar a hora.

Gabriel Mendes: Pretendem focar mais em pequenas livrarias independentes ou em grandes redes?

Lucas de Lucca: O foco é trabalhar em conjunto. Estamos mirando uma grande rede para ter livros da FLYVE em todo o Brasil. Porém o restante do nosso esforço é para estar presentes no interior de São Paulo, próximo da nossa sede em Campinas. A ideia é fortalecer a marca na região para termos grandes lançamentos e expandir a rede de pequenos livreiros conforme temos forças pra isso.

Gabriel Mendes: Hoje, qual é o principal canal de vendas da Flyve? Marketplace, site próprio, eventos, redes sociais?

Lucas de Lucca:  Nosso principal canal de vendas é nosso site próprio. O público da Flyve sabe que o melhor preço é no nosso site e isso vem nos ajudando muito.

Gabriel Mendes: Como a Flyve trabalha a exposição e divulgação dos autores? Existe um trabalho de assessoria de imprensa ou isso fica por conta do próprio autor?

Lucas de Lucca:  Isso depende muito, e também muda muito. Assessoria de imprensa, sem dúvida, não é nosso foco. É um trabalho que fica muito no final da escala de relevância para livros de literatura de gênero. Diferente de livros destinados à premiação, onde vale mais a assessoria de imprensa do que tráfego pago, por exemplo. No geral todos os livros que temos passam por uma série de consultorias com o autor (sobre sua imagem e como expandi-la). Dentro da nossa estrutura, dependendo do caso, trabalhamos com tudo que existe de marketing. Desde tráfego pago, influenciadores e posts em redes sociais à material impresso de guerrilha e product placement. Vai variar de livro pra livro.


Gabriel Mendes:
Pode citar um exemplo concreto de algo que a Flyve tenha feito que causou um impacto direto e positivo na carreira de algum autor?

Lucas de Lucca:  Temos o exemplo do Renan Carvalho, que conseguiu publicar na editora Planeta e alcançar duas vezes a lista da Veja (de mais vendidos). Isso aconteceu após a Flyve trabalhar e financiar o lançamento da série Supernova, que foi recusada pela Planeta (em um primeiro momento) por ser um projeto muito arriscado. Rosielle Pegado é um caso de que gosto muito. Ela é uma autora de não ficção que usou os livros publicados como autoridade. Ela publica seus livros e os vende em palestras que faz. Hoje ela é presidente da APPOEF e conquistou um nível de vida totalmente diferente. Temos muitos casos de autores que tiveram projeção de imagem e sucesso financeiro, só que eu acho que isso é o papel de qualquer editora. Se um autor meu, como Marcelo Câmara, conquista reconhecimento e começa a ser mais lido, porque lançamos seu livro novo com qualidade e bom marketing, é culpa dele também. Muito mais dele, na verdade, porque fizemos o mesmo com vários livros e poucos alcançaram os mesmos resultados. O mercado editorial não é sobre o que a editora pode fazer pelo autor, quem busca essas respostas vai conversar a vida inteira com vanity press. Elas fazem questão de te convencer a publicar nelas. Qualquer editora que realmente esteja fazendo trabalho de editora vai investir nos livros que acredita. Se der certo, show, se der errado, parte para a próxima. O que muda de um caso para o outro é o autor, que é quem escreveu o livro, quem agrega com os times da editora e muda o processo. Por isso acredito tanto no poder dos autores independentes. As editoras precisam abrir o olho e investir mais neles.

redação

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