Carlos Rodrigues atua no setor de Marketing e Comunicação da editora Astral Cultural, uma das editoras mais conhecidas do Brasil quando o assunto é literatura contemporânea voltada ao público jovem.
Presente na Bienal do Livro do Rio, Carlos conversou com o Panorama da Escrita sobre as estratégias da editora, o comportamento do público leitor e o papel das feiras literárias no fortalecimento da relação entre autores, editoras e leitores.
Gabriel Mendes: O que você tem achado do movimento da Bienal do Rio nesses primeiros dias? Quais as suas impressões iniciais?
Carlos Rodrigues: O evento está bem cheio. As editoras investiram bastante este ano, os estandes estão muito bonitos. A Bienal do Rio é a maior, maior até que a de São Paulo, ocupando três pavilhões: 2, 3 e 4. No sábado, inclusive, os ingressos esgotaram. Hoje está mais tranquilo. E o público continua majoritariamente jovem. Algo que tenho ouvido também bastante do público é que os preços não estão tão atrativos este ano. Ontem mesmo escutei isso. Para uma feira, para o Rio, o pessoal esperava promoções melhores.
Gabriel Mendes: E o que vocês da Astral têm feito para atrair esse público mais jovem?
Carlos Rodrigues: A gente tem investido bastante em criadores de conteúdo — do TikTok, Instagram e YouTube — e também em lançamentos contemporâneos, muitas vezes chamados de “romances de construção”.
Por exemplo, temos títulos como Nadando no Escuro, Mentiras que Contamos, e Cleópatra e Frankenstein. Este último aborda temas sensíveis como relacionamentos abusivos, alcoolismo e automutilação. Esse tipo de literatura conecta bem com o público de 16 a 30 anos. Estamos unindo um catálogo mais atualizado com influenciadores para chegar mais perto desses leitores.
Gabriel Mendes: E para os escritores iniciantes, qual conselho você daria para eles aproveitarem ao máximo a Bienal?
Carlos Rodrigues: É essencial criar conexões. Falar com leitores, com o público e com criadores de conteúdo, especialmente os menores, com 3 a 5 mil seguidores, que são super engajados. Muita gente olha só para os grandes nomes, mas os microinfluenciadores valorizam muito os autores que prestam atenção neles. Às vezes, vários pequenos criadores falando sobre o mesmo livro têm mais impacto do que um grande influenciador sozinho. A gente já testou isso e funciona muito. Inclusive, Tem muito Instagram literário com 3, 4 mil seguidores que engaja mais do que um criador com 100 mil. A gente já testou isso: Às vezes é melhor ter 10 pequenos divulgando do que um grande.
Gabriel Mendes: E como um autor pode entrar em contato com a Astral Cultural para publicar um livro?
Carlos Rodrigues: Hoje, o caminho mais tradicional é por meio de agentes literários. A gente trabalha bastante com a agência Increase, por exemplo. Autores como Thais Bergmann, Vinícius Fernandes, Sara Fidelis e Pablo Zorzi vieram por esse caminho. O agente intermedia esse contato mais próximo com a editora.
Ou seja, a editora diz o que está buscando, e a agência apresenta obras alinhadas. Mas também tem casos que fogem desse padrão. Alguns contatos estratégicos ou relacionamentos que não seguem essa lógica, podem gerar publicações. Inclusive, estamos lançando agora “O Rio que corta por dentro”, do autor Raul Damasceno, por exemplo, foi um livro independente que chegou até nós por indicação de leitores e criadores — inclusive do Paulo Ratz, um grande influenciador que recomendou essa obra e chegou até a editora. Então o boca a boca também funciona. São vários caminhos, o agenciamento é o principal mas certamente não é o único.
Gabriel Mendes: Para os autores que têm dificuldade com o digital: hoje em dia é indispensável estar presente nas redes?
Carlos Rodrigues: Com certeza. Extremamente importante. Precisa se fazer conhecido. Criar uma comunidade virtual de leitores é fundamental. Autores como a própria Thais Bergmann e Sara Fidelis fazem isso muito bem. Criam grupos no Telegram, WhatsApp, fazem brindes, sorteios. Os leitores gostam muito disso. Principalmente no Instagram, que é onde você precisa estar. TikTok também, dependendo se for um público mais jovem. De qualquer forma, o essencial é estar presente e interagir com seus leitores.
Gabriel Mendes: Se fosse para apostar em um gênero literário para 2025, qual você escolheria?
Carlos Rodrigues: Apostaria na literatura contemporânea mesmo. Por exemplo, uma pegada tipo Tudo é Rio de Carla Madeira. Seria algo mais próximo do que publicamos com o Patrick Torres no “Cozer das pedras, o roer dos ossos”. O próprio “Cleópatra e Frankenstein” e o “Rio que corta por dentro”. Esse tipo de literatura que hoje é chamada de “romance de construção” — trata de temas sérios como violência, relacionamento homoafetivo, feminicídio, tentativa de suicídio, não de maneira tão descritiva, mas com uma linguagem acessível. Ela é jovem-adulta e adulta ao mesmo tempo. Não é clássico, mas tem profundidade. É diferente da fantasia ou do infantojuvenil. E está crescendo muito.
Gabriel Mendes: Pra ficar claro, qual seria a diferença entre Young Adult e infantojuvenil?
Carlos Rodrigues: O infantojuvenil acaba sendo mais leve e, às vezes, puxa até para algo mais pra comédia romântica ou fantasia — do estilo Percy Jackson, mais voltado para aventura.
Já o Young Adult (jovem adulto) tem temas mais densos. Pode abordar, por exemplo, violência, relacionamentos abusivos, traumas, dramas familiares… Às vezes até sem ser explícito, mas esses temas estão ali. Ele é voltado para um público a partir dos 20 anos, e muitos adultos também consomem. Pode ter alguns gatilhos. Mas é uma literatura mais acessível, estilo Itamar Vieira Junior. É um tipo de literatura que ao mesmo tempo que ela é jovem adulta, também é adulta. Mas não chega a ser literatura clássica. Então, é esse tipo de obra que está crescendo muito.
Gabriel Mendes: Para finalizar: Na sua visão, qual a importância das feiras literárias para editoras e autores?
Carlos Rodrigues: É fundamental estar presente, não só na Bienal, mas em outras feiras também. Vai ter feira em Salvador, Curitiba, Pernambuco… As de São Paulo e Rio são as maiores, claro, mas todas são importantes. As conexões que se fazem nesses eventos são valiosas — com leitores, com outros autores, com agentes. Foi assim que nos conhecemos, aliás. Então, meu conselho é: participe, circule, conheça pessoas. Isso pode abrir muitas portas.
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