ENTREVISTA

“A editora tem muitos títulos em andamento e naturalmente vai investir mais naqueles que mostram retorno”

Com uma trajetória que começou no meio acadêmico, Simone transformou a Editora Qualis em uma das principais casas de acolhimento ao autor nacional.

Reconhecida por abrir portas para escritores iniciantes e apostar na literatura brasileira em todas as suas vertentes, a Qualis se firmou como uma editora diversa, comprometida com qualidade e inclusão no mercado editorial.

Nesta entrevista, Simone compartilha sua visão sobre os desafios do setor, a importância da presença nas Bienais e os caminhos reais para autores que desejam construir uma carreira sólida na escrita.

Gabriel Mendes: Como surgiu a Qualis e qual é o foco editorial da casa?

Simone Fraga: A Qualis nasceu com um propósito muito claro: ser uma casa acolhedora para autores nacionais. Nosso ponto de partida foi o universo da pesquisa científica – especialmente com publicações voltadas à área do Direito. Foi ali que demos nossos primeiros passos, trabalhando com pesquisadores e acadêmicos que precisavam de uma editora séria, comprometida e que entendesse o valor do conhecimento produzido no Brasil.

Mas o selo de literatura da Qualis surgiu de um lugar muito mais pessoal: da minha própria paixão pela escrita e do sonho de, um dia, publicar um livro de romance. Mesmo vindo da área técnica, com mais de 40 livros publicados, sempre tive um carinho especial pela ficção, e foi esse desejo que impulsionou a criação de um espaço dentro da editora voltado exclusivamente à literatura. A partir disso, começamos a atrair muitos autores talentosos que buscavam uma primeira oportunidade – um lugar onde fossem levados a sério e pudessem construir uma carreira no mundo editorial.

Hoje, já passamos dos 150 títulos publicados e seguimos crescendo. Nosso foco está em abrir portas para autores nacionais que têm bons trabalhos e querem viver da escrita. Sabemos que essa é uma caminhada longa, que exige paciência e resiliência, especialmente num país onde a literatura nacional ainda disputa espaço com obras estrangeiras que chegam com grandes campanhas de marketing. Mas é justamente nesse cenário que a Qualis Editora se posiciona: oferecendo apoio, um pouco mais de visibilidade e estrutura para quem está começando – e para quem sonha alto.

Gabriel Mendes: Há algum gênero específico em que vocês focam mais?

Simone Fraga: Nosso catálogo é bem diverso justamente porque acreditamos na força da pluralidade de vozes e histórias. Não temos um único gênero como foco principal – trabalhamos com o que chega até nós e com aquilo que, de fato, tem qualidade e potencial de diálogo com o público. Consideramos no processo de curadoria dos originais tanto a proposta literária quanto o momento do mercado.

É claro que, como toda editora, estamos atentas às tendências. Existem períodos em que certos gêneros ganham mais força – como thrillers psicológicos, dark romance, narrativas LGBTQIAP+, fantasia urbana ou histórias com pegada mais emocional, por exemplo. Mas, acima de tudo, o que nos move é a boa escrita e o potencial de envolvimento com o leitor.

No selo de entretenimento, temos obras que vão do terror à comédia romântica, passando por aventura, fantasia, drama, mistério, realismo mágico e muitas histórias que também abordam pautas importantes de forma sensível e acessível. Essa diversidade reflete não só o perfil dos nossos autores, mas também o nosso compromisso de publicar uma literatura brasileira viva, criativa e em constante diálogo com seu tempo.

Gabriel Mendes: Quais são as qualidades que um autor precisa ter para se destacar nesse meio?

Simone Fraga: Essa é uma pergunta difícil justamente porque não existe uma fórmula mágica para se destacar no mercado editorial. Mas se eu tivesse que apontar uma qualidade essencial hoje, diria que é a autenticidade. Em tempos de redes sociais, o público quer mais do que um bom livro – ele quer conexão com quem escreve. O leitor quer saber quem é aquela pessoa por trás da história, acompanhar o processo criativo, interagir, ir a eventos como a Bienal, tirar uma foto, pedir autógrafo… essa proximidade faz toda a diferença.

Então, o autor que quer se destacar precisa entender que, além de escrever bem, ele precisa estar presente. Participar ativamente das redes sociais, construir uma comunidade em torno do seu trabalho, mostrar bastidores, trocar com o público. Isso cria um vínculo e ajuda o livro a circular, a ser comentado, recomendado.

E claro, o livro precisa ter potencial de venda – o que envolve tanto a qualidade do texto quanto a capacidade de despertar interesse. E para isso, o autor precisa aparecer, sim. Porque por mais que o marketing da editora seja importante, o carisma e o engajamento do autor com sua própria obra são peças-chave nessa construção. No fim das contas, é uma mistura de talento, presença e consistência.

Gabriel Mendes: Você acredita que é possível viver da venda de livros no Brasil?

Simone Fraga: Sim, eu acredito, é possível viver da venda de livros no Brasil – mas é um caminho desafiador, que exige estratégia, paciência e visão de longo prazo. Tenho autores no nosso catálogo que conseguiram isso, mas nenhum deles “pulou etapas”. O que a gente observa, na prática, é que quem quer viver da escrita, geralmente começa vivendo do mercado literário de forma mais ampla.

Ou seja, antes de o livro se tornar a principal fonte de renda, muitos autores atuam em atividades relacionadas: dão palestras, fazem leitura crítica, trabalham com revisão, editoração, design, ministram oficinas, participam de eventos, criam conteúdo sobre escrita… tudo isso faz parte do ecossistema literário e ajuda a sustentar a carreira no início.

Com o tempo, conforme o autor amadurece, constrói uma base de leitores e entende melhor como se posicionar no mercado, chega o momento em que a escrita – e a venda de livros – começa a sustentar financeiramente a sua vida. Mas isso envolve planejamento, consistência e, claro, uma boa dose de paixão pela profissão. É uma jornada possível, mas que exige que o autor entenda e assuma que ele é também, o empreendedor da sua própria carreira.

Gabriel Mendes: Como funciona a distribuição dos livros da Qualis?

Simone Fraga: Trabalhamos com algumas das maiores distribuidoras do país, como a Catavento, Sollus, A Página, e estamos presentes em todos os grandes marketplaces. Além disso, também fazemos venda direta através do nosso site, ações promocionais em eventos como a Bienal, que é quando o público tem mais contato direto com o autor e com a editora.

Agora, quando a gente fala de livrarias físicas, a conversa é um pouco mais complexa. Não é só uma questão da editora estar disposta – o problema é estrutural. As livrarias enfrentam limitações de espaço, recebem centenas de lançamentos por mês e, por isso, acabam priorizando livros que já chegam com um nome forte no mercado ou com grandes campanhas de marketing – o que, em geral, significa obras internacionais ou autores que já têm visibilidade.

Para os autores nacionais em início de carreira, isso representa uma barreira real. Mesmo assim, qualquer leitor pode entrar numa livraria e solicitar um livro da Qualis – os nossos títulos estão no sistema e podem ser encomendados. Mas ainda não é simples estar em todas as vitrines, porque o processo de curadoria das livrarias costuma ser conservador, e nem sempre abre espaço para nomes novos.

O que estamos fazendo é trabalhar para ampliar essa presença, fortalecendo o nome da editora e do seu catálogo. Aos poucos, isso vai abrindo portas – e já vemos mudanças acontecendo, com mais leitores buscando ativamente obras nacionais, o que pressiona o próprio mercado a se abrir mais também.

Gabriel Mendes: Como você vê o mercado de e-books e audiolivros?

Simone Fraga: O mercado de e-books e audiolivros está em crescimento constante – e cada formato tem seu lugar, atendendo a perfis e momentos de leitura diferentes. Quando os e-books surgiram, houve quem dissesse que os livros físicos iam desaparecer, mas isso não aconteceu. Muito pelo contrário: a experiência de estar numa Bienal, de pegar o livro na mão, autografar, presentear, continua sendo insubstituível.

Mas é verdade que o leitor mais frequente costuma consumir também e-books, principalmente pela praticidade, pelo custo mais acessível e pela facilidade de ter várias obras reunidas num só dispositivo. O que vemos com frequência é esse leitor adquirir o e-book primeiro, se encantar pela história ou pelo autor, e acabar comprando o físico para ter na estante – como um gesto de afeto mesmo.

Já os audiolivros vêm ganhando força, especialmente com o estilo de vida mais dinâmico que muita gente tem hoje. Eles funcionam muito bem para quem gosta de consumir histórias enquanto dirige, se exercita ou realiza outras atividades. É uma forma de leitura que amplia o acesso à literatura, inclusive para públicos que antes não tinham o hábito de ler no formato tradicional.

Essas novas formas de leitura abriram espaço para autores nacionais se conectarem com um público mais amplo, e isso tem sido importante para fortalecer o mercado editorial brasileiro. No fim das contas, o mais importante é a história circular. Seja no papel, na tela ou nos fones de ouvido – o que vale é criar pontes entre livros e leitores.


Gabriel Mendes: Como você enxerga o investimento na Bienal? Vale a pena para a editora?

Simone Fraga: A Bienal é, sem dúvida, o grande palco do mercado editorial. Não estar na Bienal é, de certa forma, abrir mão de vivenciar tudo o que o mercado tem a oferecer em termos de conexões, visibilidade e posicionamento. É claro que vender livros é importante, mas o valor da Bienal vai muito além disso.

Em dez dias, a gente concentra tudo o que tenta construir ao longo de um ano: visibilidade de marca, relacionamento com leitores, parcerias com outros profissionais do livro e trocas riquíssimas com autores. É um investimento que se reflete em muitas frentes – não só no caixa, mas no fortalecimento da editora a médio e longo prazo.

Aqui, eu tenho a chance de conhecer autores novos, apresentar nosso catálogo para um público muito mais amplo, testar estratégias, ver de perto o que está funcionando no mercado e o que pode ser aprimorado. É uma vitrine viva. Além disso, circulam por aqui gráficas, tradutores, capistas, outros editores – prestadores de serviço que dificilmente conseguiríamos acessar com tanta facilidade no dia a dia.

A Bienal também é um momento de pertencimento. Para o autor, é um divisor de águas. É o lugar onde ele se sente parte do mercado, encontra leitores, troca com colegas, ganha visibilidade. É, literalmente, o parque de diversões dos autores. Então, sim, vale a pena, e muito. É um investimento que gera frutos em várias direções – mas que precisa saber ser aproveitado – pra mim, é essencial para qualquer editora que queira se posicionar com seriedade no mercado nacional, e para o autor que quer de fato construir uma carreira.

Gabriel Mendes: A Qualis tem entrada nas escolas ou no público mais juvenil?

Simone Fraga: Sim, a Qualis tem, sim, uma presença crescente junto ao público juvenil – tanto com obras voltadas a essa faixa etária quanto com a entrada em escolas. Muitos dos nossos autores são jovens também, e isso cria uma identificação muito forte com esse leitor mais novo, que está começando a formar seu repertório literário. Temos vários títulos que já foram adotados por professores em sala de aula, justamente por trazerem temas contemporâneos, acessíveis e que dialogam com os interesses e questionamentos dessa geração.

E um ponto que vale muito destacar, especialmente aqui na Bienal, é o incentivo à leitura promovido por prefeituras e secretarias de educação. O famoso “vale-livro”, ou o cartãozinho Bienal, tem um impacto direto no acesso ao livro – é uma política pública que funciona e que faz diferença. Muitos jovens estão tendo contato com literatura nacional contemporânea pela primeira vez por meio dessas ações.

Nosso catálogo tem obras pensadas para esse público, com linguagem adequada, temas relevantes e histórias que realmente envolvem. A gente não trabalha com literatura infantil, mas para o juvenil temos muita coisa bacana, que vai desde fantasia, aventura e romance até questões sociais, identidade e autoconhecimento. É um público que levamos muito a sério, porque sabemos que é ali que começa a formação de leitores de longo prazo.

Gabriel Mendes: Como você vê as vendas governamentais para editoras?

Simone Fraga: Sigo a linha de muitos editores: as vendas governamentais são fundamentais, mas ainda precisam ser mais acessíveis e cada vez mais transparentes. A gente precisa de mais editais democráticos, que realmente abram espaço para a bibliodiversidade – ou seja, para diferentes gêneros, estilos, autores e editoras de todos os portes. Hoje, infelizmente, esse processo ainda é muito concentrado e burocrático, o que dificulta a entrada de editoras independentes e de títulos nacionais contemporâneos.

E o impacto disso é direto na formação de leitores. É na escola que se planta a semente da leitura. Se você conquista um jovem ali, ele tem muito mais chance de se tornar um leitor para a vida toda. É muito mais eficaz fomentar esse hábito desde cedo do que tentar formá-lo na vida adulta, quando outras demandas já tomam conta do tempo e da atenção.

Por isso, políticas públicas de aquisição de livros precisam ser pensadas não só como compras institucionais, mas como estratégias de formação cultural e cidadã. Quando o governo investe em livros diversos, de qualidade, e que realmente dialoguem com os estudantes, está investindo em educação, em pensamento crítico, em acesso à cultura. É uma cadeia que beneficia todo o ecossistema do livro – autores, editoras, escolas e, principalmente, os leitores.

Gabriel Mendes: Qual conselho você daria a um autor iniciante que busca crescer no mercado editorial?

Simone Fraga: Vamos partir do princípio de que o autor já tem uma boa história e sabe escrever – isso é o ponto de partida. Mas, no mercado editorial, só isso não garante espaço. É preciso ter estratégia, entender minimamente como o mercado funciona e, principalmente, ter clareza sobre onde você está e onde quer chegar.

Sonhar é essencial, claro, mas é importante ter os pés no chão. É raro um autor estreante já sair direto em uma grande editora. Isso acontece? Sim. Mas é a exceção, não a regra. A maioria dos autores constrói sua trajetória aos poucos, entendendo seu raio de ação, buscando editoras que conversem com seu perfil, se posicionando e crescendo gradativamente.

Às vezes, começar publicando de forma independente, como em plataformas digitais, pode ser um ótimo primeiro passo – porque você começa a construir público, gerar dados, entender sua audiência. Isso ajuda muito na hora de buscar editoras, porque já demonstra movimento e potencial.

E aqui entra um ponto importante: achar que basta publicar por uma editora e que ela vai fazer tudo sozinha pelo livro é um equívoco – especialmente em pequenas e médias casas. A editora tem muitos títulos em andamento e naturalmente vai investir mais naqueles que mostram retorno. É uma engrenagem: se o livro não se movimenta, não atrai investimento. E se não há investimento, o livro não circula. Por isso, o autor é tão essencial nesse processo. Ele precisa estar presente, divulgar, construir junto.

Resumindo: o autor precisa entender que carreira literária se faz com estratégia, consistência e autenticidade. Publicar é só o começo. O crescimento vem com envolvimento.

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