ENTREVISTA

“Larguei um salário decente e estabilidade em busca de realização.”

Renato Amado, doutor em literatura e ex-advogado da Petrobras, decidiu trocar estabilidade por uma vida dedicada à escrita. Em Nonada, seu segundo romance, ele mistura existencialismo e inquietações contemporâneas com rara consciência literária. Nesta entrevista, ele fala sem filtros sobre carreira, redes sociais, prêmios, mentoria, mercado editorial e a difícil arte de continuar escrevendo.

Luiza Peixoto: O que te motivou a se tornar escritor?

Renato Amado: Comecei a escrever na era dos blogs. Em verdade, sempre gostei de escrever. No colégio, adorava redação. Com os blogs, passei a escrever sobre algumas coisas que me aconteciam, em formato de crônicas. Das crônicas, fui para contos de temas diversos e, dos contos, para um romance. Foi natural.
A maior motivação, acredito, sempre foram as horas escrevendo, em um estado diferente, de aproximação do absoluto.

Luiza Peixoto: Sua obra Nonada, recém-lançada, insere-se em um movimento literário contemporâne-existencialista. Quais autores da sua geração você acredita que dialogam com esse estilo?
Renato Amado: O que tenho lido de autores atuais lida com questões identitárias, ecológicas, vida na marginalidade, ou aborda relações humanas com grande sensibilidade. Nonada não segue nenhuma dessas linhas. Me vejo dialogando mais com Vergílio Ferreira, autor do século passado.

Luiza Peixoto: Como você enxerga a literatura contemporânea hoje? Há algum autor jovem que o inspira ou influencia?
Renato Amado: Vejo como uma literatura aberta, multifacetada, híbrida, com espaço para grupos que eram sub-representados. Também me chama a atenção uma abundância de realidade, como apontou Karl Erik Schøllhammer. A maioria dos autores escreve sobre a sua realidade social ou faz autoficção. Neste contexto, mingua a representação do outro, para o bem e para o mal.
Entre os autores jovens, não diria que me influencia, até porque escreve uma literatura bem diferente, mas admiro o trabalho de Geovani Martins.

Luiza Peixoto:: Com o declínio dos cadernos culturais em jornais e revistas, os escritores passaram a depender das redes sociais para divulgar seus trabalhos. Como você lida com essa exposição e qual é sua estratégia nas redes? Renato Amado: Até bem pouco tempo atrás meu Instagram era abandonado. Mesmo na época em que o Facebook era a grande rede, nunca fui de postar fotos, então achei o Instagram uma péssima ideia.
Fiquei bastante tempo sem publicar ficção, dedicado à academia. Com vínculo institucional, não dependia de redes sociais. Comecei a mexer no Instagram de verdade apenas após a assinatura do contrato com a Editora Cajuína para publicação de Nonada. Estou aprendendo. Há cinco meses não sabia o que era um reel, um story. Tive que aprender a usar o Canva, CapCut. Encaro como ossos do ofício.
Minha estratégia nas redes é falar de Nonada, comentar literatura existencialistas, e bem de vez faço um story comentando algo que fiz na minha vida pessoal. Provavelmente não tenho a consistência, tanto de frequência quanto de proposta, que deveria segundo um olhar pragmático, mas faço o que posso sem me desrespeitar.

Luiza Peixoto: Diante do crescimento das pequenas editoras digitais e das mudanças na distribuição após o domínio da Amazon, quais critérios você considera essenciais para escolher uma boa editora?
Renato Amado: Gosto que haja ao menos uma distribuição simbólica em livrarias, mas sem dúvida colocar o livro na Amazon é o mais essencial. Também acho importante que o autor tenha alguma voz, que possa debater o formato do livro, sua categorização na Amazon, que possa sugerir algumas livrarias para distribuir…

Luiza Peixoto: Como é a sua rotina de escrita?
Renato Amado: Não escrevo sempre. Por exemplo, estou em plena pós-publicação de Nonada. Nas semanas que antecedem e que sucedem a um lançamento é difícil colocar energia no próximo projeto; acredito que no último mês só escrevi dois dias, por poucas horas.
A rotina de escrita, portanto, varia com o momento de vida. Nas fases em que estou produzindo mais, escrevo cerca de duas horas por dia, de segunda a sexta. Não escrevo por muitas horas por dia por dois motivos. O menos importante é porque é uma atividade que precisa ser feita com excelência. Não dá para escrever cansado, gripado ou de ressaca. Já a razão mais importante é que, por mais que sofra na hora de lapidar um texto, o prazer, em alguma medida, deve estar sempre presente. Nunca abrirei mão disso. Por dez anos fui advogado concursado da Petrobras. Larguei um salário decente e estabilidade em busca de realização. Tenho um compromisso com o Renato que pediu demissão desse emprego quase dez anos atrás. Por isso, meu nível de concessão hoje em dia é baixo. Cansei, paro de escrever até o dia seguinte ou até o fim do dia.
Uma vez que sente para escrever, tenho meus pequenos rituais. Costumo ter um chá preto ou de hortelã junto ao computador. Às vezes um jazz clássico tocando e, de preferência, meia-luz. Isso ajuda a criar um clima, principalmente quando estou na fase de polir o texto, o que corresponde a 80% do tempo de escrita. Costumo produzir um texto bruto que depois lapido, que é o trabalho mais árduo. Para escrever esta primeira versão posso dispensar alguns rituais. Parte da versão bruta do meu próximo romance foi escrita no celular, deitado na rede. Quando o texto está fluindo, o esforço é baixo e os rituais dispensáveis.

Luiza Peixoto: A presença dos influenciadores literários se tornou uma realidade no mercado. Na sua opinião, como construir parcerias autênticas e encontrar os influenciadores certos para divulgar um livro? Renato Amado: Busquei alguns influenciadores que fazem resenhas de livros que de alguma maneira pertencem ao mesmo universo de Nonada. Para encontrá-los usei uma planilha que do amigo Guilherme Tolomei tem com o ecossistema literário brasileiro e fiz buscas.

Luiza Peixoto: Vivemos em uma sociedade cada vez mais audiovisual. Qual é, na sua visão, o futuro do livro nesse cenário?
Renato Amado: Já estamos em um mundo audiovisual há bastante tempo. Como consequência, a literatura perdeu muita importância. Não se compara a relevância da literatura hoje com a centralidade cultural que tinha na segunda metade do século XIX e início do XX. Isso já é um dado há algum tempo, então não creio que o futuro da literatura passe pela questão do audiovisual, isso já foi. Mesmo a influência do audiovisual sobre alguns autores que, por exemplo, aplicam técnicas de roteiro, já não é novidade. Pensando no futuro, acredito que são outros os fatores a observar. Vivemos a era da informação rápida – tweets, shorts. Isso faz com que o intervalo de concentração de muitos jovens seja curtíssimo. Quando era professor na Universidade do Arkansas passei Cidade de Deus fora do horário de aula, como atividade opcional. Uma aluna saiu várias vezes durante o filme, mexeu frequentemente no celular… Ao final, comentou que adorou o filme e me perguntou quando passaria outro. Não importava a história, que ela mal seguiu, mas que houvesse cenas que a prendessem por alguns minutos. Qual a consequência disso na literatura? Não sei. Poderia concluir que textos longos estão perdendo espaço, mas desconfio que não é verdade. Talvez a literatura seja uma contratendência na era das informações rápidas.

Luiza Peixoto: O meio literário é conhecido por ser fechado. Você considera importante cultivar relações com outros escritores? Como faz isso na prática?
Renato Amado: Todos dizem que networking é fundamental, em qualquer área. O meio literário não é exceção, ao contrário. Goste-se ou não, a validação pelos pares costuma ser fundamental para um autor alçar voos mais altos.
Conheci muitos escritores quando fui editor. Outros, em um clube de leitura que frequentava. Alguns que se juntaram a um coletivo multiartístico que criei e coordenei por muitos anos chamado Caneta, Lente & Pincel. Mais um punhado por amigos do mercado editorial. Alguns se tornaram amigos e as relações são cultivadas naturalmente. Com outros, interajo com seus perfis nas redes sociais, convido para meus lançamentos, vou em seus lançamentos, dou exemplares de presente, dependendo da relação convido para um café para dar um exemplar de meu livro ou botar o papo em dia. Enfim, para conseguir espaço no mercado é importante estar sempre por aí. Goste-se ou não. Mas sempre respeitando-se. Se passamos a odiar nossas vidas por conta de um esforço excessivo de networking, o sonho torna-se pesadelo.

Luiza Peixoto: Como doutor em Letras, de que forma a academia influenciou sua escrita e sua visão sobre literatura?
Renato Amado: Durante o doutorado li uma quantidade massiva de livros – no primeiro ano, eram em média setecentas páginas por semana. Isso fez com que eu desenvolvesse uma consciência literária mais acentuada. Fala-se muito do não-dito em Nonada. Consciência literária talvez seja, em grande parte, saber quando calar.

Luiza Peixoto: O mercado de mentorias literárias e de carreira movimenta milhões de reais no Brasil. Como você enxerga esse fenômeno?
Renato Amado: Tem muito mais escritores do que lugar ao sol. Com isso, há incontáveis autores frustrados, com obras lidas apenas por conhecidos. Quando alguém surge dizendo que vai resolver o problema, a pessoa tende a agarrar-se à promessa. Vamos lembrar que estamos no terreno do sonho, pois poucos escritores encaram a escrita como mero hobby. A maioria cultiva o sonho de tornar-se relevante no mercado. Assim, como estão lidando com semidesesperados, o valor cobrado por especialistas em marketing e mentores costuma ser alto. Não sei se funciona, optei por não contratar. Aconselho-me com um amigo que é mentor, mas preferi investir em assessoria de imprensa. Não faço a menor ideia se estou certo.

Luiza Peixoto: Como você planeja sua trajetória como escritor? Busca ser reconhecido por um estilo específico? Já tem em mente uma sequência de obras?
Acho improvável que o existencialismo abandone minha obra, embora ele possa vir misturado a outros temas. Gosto de trabalhar o existencialismo com um elemento de fantástico, ainda que este seja apenas pano de fundo, como em Nonada. Já foi usada a expressão “existencialismo cósmico” para se referir a esta obra. Pode ser uma tendência. O meu próximo livro é uma ficção científica socioexistencialista. Para os romances seguites, não sei se seguirei na ficção científica, mas o existencialismo e o fantástico (ainda que sugerido, ou discreto) devem permanecer.

Luiza Peixoto: Os prêmios literários se tornaram uma obsessão para muitos autores contemporâneos, embora frequentemente marcados contatos políticos e escolhas apenas por prestígio. Qual é a sua visão sobre isso?
Renato Amado: Em um cenário em que há um mar de escritores, é natural que os prêmios sejam uma obsessão. É uma forma de se destacar da multidão, ser lido, levar a carreira a um novo patamar.
Quanto aos problemas que você levantou, sem dúvida o prestígio ajuda muito a ganhar um prêmio concorrido. Até pelo volume de obras inscritas. Há jurados que confessam ler apenas obras de editoras grandes ou que tiveram repercussão. Não é o ideal, mas como condenar, quando há uma quantidade de livros que é impossível ler?
Há outros problemas, como a escolha dos jurados. Recentemente, o Marcelo Moutinho publicou um ótimo artigo em que aponta falta de critério na nomeação de avaliadores para o Prêmio Jabuti. Há jurados com pouco conhecimento da categoria que devem julgar. Acrescento que há, também, uma incipiente e insidiosa penetração olavista. Já houve jurado atribuindo notas inacreditavelmente baixas a obras que consideravam progressistas, praticamente as tirando da disputa. São questões a resolver, mas os concursos literários são bem-vindos, sobretudo se conseguirem se abrir mais àqueles que ainda não estão em grandes editoras e, portanto, não têm uma visibilidade natural.

Luiza Peixoto: Você já foi dono de uma editora. Pensa em voltar a empreender na área editorial?
Renato Amado: Como sócio, não é algo que pense a sério no momento, mas posso exercer funções em editoras de outras pessoas. Semana passada fui convidado a compor o Conselho Editorial de uma editora. Estamos conversando.

Luiza Peixoto: Muitos acreditam que é impossível viver de literatura no Brasil. Qual é a sua opinião sobre isso?
Renato Amado: Viver de literatura não é fácil aqui nem fora daqui. Entretanto, isso é usado ad nauseam para justificar frustrações. Como dizem por aí, o foco deve ser no resultado, então é melhor o autor focar nisso do que nas dificuldades, pois são tantas que, se ocupar grande parte do campo de visão, é fácil desistir.

Luiza Peixoto: Todo escritor enfrenta incertezas ao longo da carreira, desconfiando de seu próprio talento? Como manter a motivação quando parece que suas ideias não repercutem?
Renato Amado: Essa é uma grande pergunta. Só posso falar sobre mim. Houve um momento em que desisti. Foquei na carreira acadêmica e deixei a escrita criativa de lado por quase uma década. Agora, ao retomar, noto um interesse no meu texto que não havia antes. No meu caso, a carreira acadêmica justamente na área literária me fez muito bem, me deu uma consciência que não tinha. Olho para trás e penso: claro que eu não conseguia repercussão, minha literatura era ingênua até dizer chega. Hoje estou voltando, então está fácil manter a motivação; pela primeira vez tenho tempo e consciência das minhas escolhas literárias. Para quem passou uma década autoexilado da escrita criativa, qualquer barulho já anima. O desafio virá com o próximo romance: será que repercutirá mais ou menos do que Nonada? Enquanto o movimento for ascendente, não é difícil manter a motivação. Se houver estagnação ou retrocesso, claro que virá desconfiança sobre meu próprio talento e sobre minha capacidade de networking (culpar o networking, aliás, costuma ser uma maneira confortável de o autor evitar encarar suas reais limitações). Mas, sinceramente, é normal desconfiar. Gostar de escrever não significa ter talento nem entendimento do que se faz. O ideal é que o autor escreva para si e o que vier de repercussão seja lucro. Reconheço: fácil é falar.

Luiza Peixoto: Por fim, uma pergunta essencial: o que é mais importante — escrever ou viver?
Renato Amado: À exceção de Braz Cubas, morto não escreve. Mas mesmo morto, quando Braz Cubas escrevia, estava vivendo

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