ENTREVISTA

Ex-agente literário de Paulo Coelho fala sobre o mercado editorial e estratégias de marketing do livro

Carlos Eduardo Rangel é carioca, autor do livro “Aqueles Olhos Negros”, se tornou uma figura proeminente no cenário literário, conhecido não apenas por sua obra, mas também por sua cofundação da renomada agência literária de Paulo Coelho. Foi responsável por contribuir ativamente com o fenômeno de vendas dos livros de Paulo Coelho fora do Brasil e o sucesso internacional do autor na década de 90.

Sua trajetória, que se estende por mais de três décadas na Europa, oferece uma perspectiva única sobre as transformações do mercado editorial e o papel do escritor na era digital. Com uma visão que transita entre o analógico e o digital, Rangel compartilha suas experiências e reflexões sobre a visibilidade do autor, as estratégias de marketing e o futuro da literatura em um mundo cada vez mais conectado e influenciado pela inteligência artificial.

GABRIEL MENDES: Carlos, você sente que um escritor com perfil mais analógico, mais afastado das redes, ainda tem chance de alcançar sucesso? Ou é quase impossível e precisa se adaptar ao novo momento desse mundo cada vez mais digital?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Tem que se adaptar. Não tem jeito. Quando pensei nessa entrevista, me veio muito forte a figura do autor que não quer participar desse ambiente digital, porque não se vê capaz de se transformar num garoto-propaganda de si mesmo. O mercado editorial mudou.

Hoje, muitas editoras querem autores que já venham prontos, com o livro finalizado e uma presença digital consolidada. A lógica é: você, autor, fará o marketing, não a editora. Eles procuram perfis com 150, 200 mil seguidores — é uma realidade de mercado. Para autores mais analógicos, como eu, que vêm de um tempo em que havia uma verdadeira parceria entre autor e editora, essa mudança é desafiadora.

Vi o Paulo Coelho, por exemplo, se dedicar intensamente à divulgação dos próprios livros, com paixão e esforço total. Mas era outra época — hoje as pessoas leem menos, e o digital domina. Acredito que o autor precisa se adaptar. Nem todo escritor se sente à vontade com essa exposição nas redes, especialmente os mais acadêmicos, mais introspectivos. E são justamente esses, muitas vezes, os que produzem obras literárias mais consistentes.

Há exceções, claro. A escritora espanhola Rosa Montero, por exemplo, é discreta, mas tem uma carreira sólida e vendeu milhões de livros. Em contrapartida, há aqueles autores mais midiáticos — como foi o Jô Soares — sabem usar sua visibilidade para impulsionar suas publicações. São perfis diferentes, mas hoje, de um jeito ou de outro, o autor precisa encontrar uma forma de ocupar o espaço digital.

GABRIEL MENDES: Então o autor precisa, hoje em dia, ter boa visibilidade?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Sim. Porque, infelizmente, a pessoa que não é visível, não existe. Se ela não tem uma performance digital, ou não está disposta a trabalhar para isso, desaparece.

Hoje há muitos meios, muitas formas de fazer essa promoção. Eu mesmo estou estudando isso agora. Estou lançando meu livro no mercado espanhol e ainda não tenho totalmente claro como vou fazer a campanha de marketing. Vai ser desafiador. Demanda muito tempo, e eu tenho outras coisas para tocar. Mas estou justamente nesse ponto: entendendo como equilibrar esse novo papel do autor com a produção literária. Minha ideia é lançar antes do verão europeu, quando as pessoas costumam ler mais, nas férias de agosto. Vamos ver como será.

Agora, claro, se o livro é bom, ele pode entrar no famoso boca a boca — que era o que funcionava muito naquela época. Foi assim com o Paulo [Coelho]. Ele decolou porque o livro dele começou a ser recomendado. As pessoas liam e indicavam. Era um fenômeno. Eu via isso acontecer. Lembro de estar no metrô, nos trens da Catalunha, e ver alguém lendo O Diário de um Mago. Era como se fosse um filho meu.

GABRIEL MENDES: Já que tocou neste ponto, gostaria de saber se você sempre trabalhou com agenciamento literário. Como foi que você entrou no mercado editorial na Europa? Já fazia isso no Brasil?

Não, não. Eu sempre trabalhei como farmacêutico industrial. Trabalhava em multinacional, na área de controle de qualidade. Mas comecei a fazer teatro no Rio de Janeiro. A gente formou um grupo chamado Alquimistas de Ágape, baseado na obra do autor. O nosso diretor cruzou com o Paulo num restaurante e o convidou para ver nossa peça. Ele foi. A partir dali, nos conhecemos e deu início a uma grande amizade entre nós 3. Na época, a Mônica, minha namorada, estudava engenharia química, e nós dois estávamos com esse desejo de fazer algo maior, seguir nossos sonhos e viver novas experiências. Então tomamos a decisão de vir para a Europa, mesmo sem saber direito como seria. Era outro tempo. Não tinha essa conexão fácil. Éramos bichos estranhos por aqui. As pessoas nem reconheciam nosso sotaque português. Achavam que eu era alemão, francês…

O Paulo, sabendo que a gente vinha, deu para Mônica os dois livros que ele estava lançando no Brasil: O Alquimista e O Diário de um Mago. Trouxemos na mala. Ele já tinha um público formado— tinha sido letrista do Raul Seixas, tinha uma editora própria, era conhecido. Isso ajudou. Mas a primeira edição foi pequena, mil exemplares, algo assim, mas para época já era uma grande tiragem. Ele tinha uma boa rede de contatos, e isso gerou uma venda inicial boa. Mas a editora dele não tinha força de distribuição. Foi quando entrou a Rocco.

A Mônica Antunes participou da reunião antológica com o Paulo Coelho e o Paulo Rocco para fazer essa transição dos direitos do seu primeiro editor para a Rocco. E aí sim veio o salto. Naquele momento, estar numa grande editora fazia toda a diferença. Maior poder de distribuição, presença em todo o país, rotação do livro nas estantes…A editora tinha força para superar os desafios da inflação naquela época. Isso era fundamental. O livro precisava estar em todos os cantos — no Nordeste, no Sul, em São Paulo — e precisava estar bem exposto e circular. Porque, senão, ele virava um estoque parado, um custo.

Hoje em dia, com tiragens cada vez menores, muitas editoras esperam que o milagre aconteça sozinho. Mas o mercado não funciona assim. Alguém tem que empurrar, tem que acreditar, tem que investir. E naquela época, o Paulo Rocco teve essa visão. Acho, inclusive, que ele nem leu os livros do Paulo Coelho antes de publicar. Mas ele viu o potencial do projeto. A mensagem era fresca, nova. No início, caiu um pouco numa coisa meio esotérica, mas logo depois se viu que era realmente algo de valor, mensagens muito poderosas para o aperfeiçoamento e o progresso da pessoa. Naquela época, era como se fosse um coach, um grande mentor.

GABRIEL MENDES: Você acha que hoje, para o escritor que está começando no Brasil, é natural que o próximo passo seja levar seu trabalho para o mundo, ou primeiro ele precisa se comprometer em ser grande no Brasil para depois dar esse outro passo?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Depende. Por exemplo, veja meu caso. Eu sou brasileiro, mas moro aqui na Europa há 36 anos. Eu não estou nessa linha de esperar ter uma base, um bom retorno no Brasil para poder fazer isso. Como eu estou aqui, assim como muitos brasileiros que vivem fora, penso que não há motivo para esperar uma resposta do Brasil. Esse é o meu caso. Seria ótimo ter uma boa resposta do Brasil, claro, mas eu não fico preocupado com isso. Acho que sigo uma linha mais pessoal… Quero que meu trabalho seja aceito e possa contribuir com os leitores. Não estou tão preocupado com números. Os números são interessantes, mas…não foco apenas nisso, pois aí precisaria mudar muito a maneira que eu sou e vejo as coisas, entende?

GABRIEL MENDES: E sobre o seu livro “Aqueles olhos negros”, o que o leitor pode esperar?

 CARLOS EDUARDO RANGEL: Acho que é uma história interessante, porque quase ninguém conhece esses começos do Paulo Coelho, sabe? Apesar de ter colocado ele como um personagem absolutamente secundário, porque a história não é dele — é outra história, uma história da minha vida, um romance de vida. Então acho que isso desperta interesse, sabe?

Além disso, penso que o meu livro é muito jovem, apesar de eu ser um cara mais sênior. Porque ele fala de uma fase da juventude, e eu corto o livro justamente quando passo para outra etapa da vida. Então ele é um livro jovem. E acho legal também essa coisa da mudança de país, adaptação, e de como se deu o fenômeno Paulo Coelho. Realmente tem muita coisa ali, bastidores interessantes, inclusive da esposa dele, a Christina Oiticica. Tem muita informação mesmo que poucas pessoas conhecem. Inclusive, acredito que “Aqueles olhos negros” ajuda as pessoas a entenderem um pouco o Paulo, porque o Paulo é um grande personagem brasileiro, e às vezes acho que as pessoas não consideram isso. Acho que o Brasil foi muito generoso com o Paulo, mas, por exemplo, às gerações de agora muitas vezes nem sabem quem ele é.

GABRIEL MENDES: Sim, de fato, o seu livro traz coisas muito íntimas desse contexto — do Paulo, da Christina, de você também, e dos desafios que vocês estavam vivendo na Espanha. Além disso, é uma linguagem muito acessível e envolvente. Falando nisso, como vocês conseguiram, por exemplo, promover o trabalho do Paulo Coelho lá na Espanha? Qual foi as estratégias que vocês adotaram na Europa para convencer as editoras?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Ah, isso é bem legal. Posso te contar a estratégia de forma bem sucinta, tá? Mas há muitos detalhes, nuances nisso. Primeiro: naquela época, era essencial ter um plano de marketing bem definido com a editora, uma campanha muito bem feita. Aprendemos muito com o Paulo, porque ele, como editor também, intuía o que precisava ser feito e como fazer.

A gente também passou pela experiência com a primeira editora no Brasil e, depois, com a Rocco. Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo — ele trabalhava, viajava, trabalhava muito pra promover o livro dele… Esse é o ponto número um. Mas hoje em dia, isso que estou te contando não funciona mais com as editoras, tá? Essa estratégia não funciona mais, porque as editoras querem um produto já pronto, acabado. Então temos que voltar à estaca zero.

Segundo ponto importante: a gente não deixou de visitar livrarias, principalmente a Mônica. As mais importantes de Barcelona e Madri. A gente não parava, mesmo. Essas livrarias eram a base do boca a boca, porque naquela época havia uma relação mais próxima, as pessoas iam até o livreiro e perguntavam: “O que você recomenda?” E o livreiro te conhecia. Hoje em dia isso não existe mais. Então estou te contando duas estratégias que já não funcionam mais. Por isso eu digo: sou muito analógico, sabe? (risos)

Terceira estratégia, que também não existe mais: o bom jornalista literário. Aquele profissional que se dedicava a fazer uma boa resenha — fosse ela positiva ou negativa. O Paulo Coelho recebeu várias resenhas, muitas positivas e algumas negativas, mas eram resenhas aprofundadas, bem estruturadas. Hoje isso está sumindo.

O que temos são influenciadores repetindo o que todo mundo já disse, copiando quem tem mais seguidores. É um ciclo fechado, que gira entre quem quer viver disso — como meio de vida — mas não é uma análise profissional séria, profunda. Aquela crítica literária robusta, bem feita, que te faz pensar: “Nossa, essa pessoa entendeu a fundo o livro” — está desaparecendo. E aí, cabe ao leitor decidir se segue ou não aquela opinião. Mas na minha visão, esse jornalista está em extinção.

Eu mesmo perguntei ao meu editor: “Tem algum jornalista para quem a gente possa mandar o meu livro, pedir uma resenha?” E ele respondeu: “Não tem.” E hoje o que temos? O digital. Temos que focar no mundo digital. Além disso, tem uma outra questão: agora estamos no momento da inteligência artificial. E com a IA, meu amigo, o escritor já não é mais o escritor autêntico. É aquele que escreve só um pedacinho e pronto, acabou. Mas a IA não consegue escrever com o coração, fica muito superficial. Então é um momento de mudança muito grande. Ao mesmo tempo, dizem — e eu tenho escutado isso bastante — que escrever está cada vez mais em alta. Justamente porque precisamos de pessoas que realmente saibam escrever. Me disseram também, a Mônica (agente do Paulo) comentou, que hoje há mais gente escrevendo do que lendo. E isso é curioso.

GABRIEL MENDES: Uma coisa que me chamou atenção no seu livro foi como você apresentou o Paulo. Eu o conhecia pelos livros, com aquele lado mais místico, profundo, e excelente escritor. Mas você também mostrou um Paulo estratégico, com forte tino comercial. O que você pode comentar sobre isso?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Olha, ao longo dos anos que convivi com o Paulo, sempre vi uma pessoa muito espiritual, assim como a Cristina. Eles têm uma religiosidade forte, sem dúvida. Mas, ao mesmo tempo, o Paulo sempre foi muito prático, muito direto. Nunca vi nele uma postura esotérica, exibida. Os verdadeiros místicos, na minha visão, guardam isso pra si. Várias vezes pensei em perguntar coisas a ele, mas depois me dava conta: isso é meu, é de cada um. O que é espiritual precisa ser vivido, experimentado.

No meu caso, a religiosidade veio da minha mãe, da herança familiar. Mas eu tinha inquietações próprias, então fui investigar, buscar. E sinceramente? Não tenho mestre. Meu mestre sou eu. Acredito muito nessa ideia de automaestria, que está nas pequenas provas do dia a dia — levantar, viver, estar presente. Então pra resumir sobre o Paulo, eu não via ele como um escritor de ajuda. Eu vejo o Paulo como um filósofo, entendeu? Uma espécie de criatividade solta, como se fosse um universo. Vejo um cara com muita sabedoria. Mas, se ele tivesse esse afã, ele está longe de qualquer coisa relacionada a “seita”, entendeu? O Paulo tem horror a isso. Eu também. Acho barra pesada esse negócio das pessoas seguirem alguém. Pra mim, é um terreno perigoso.

GABRIEL MENDES:: Edu, já entrando na reta final, queria saber se você tem algum bastidor que você poderia compartilhar do seu trabalho em parceria com o Paulo, ou algo fora da caixa que fizeram para ter resultados acima da média? Já li, por exemplo, que o Paulo se vestia de mago pra promover os livros…

CARLOS EDUARDO RANGEL: Olha só, lembro de uma vez em Barcelona. O Paulo me deu um papel com uma nota escrita por ele mesmo: “Edu, manda isso aqui por Fax” pro jornal tal lá no Brasil — era pra um colunista da época, no ano de 1993 ou 1994.

Ou seja, era uma nota como se fosse um jornalista, mas na verdade era o Paulo falando dele mesmo. E claro, eu mandei por fax… Rapaz, não é que a nota realmente foi publicada no dia seguinte?! Esse tipo de coisa só faz quem sabe o que está fazendo.

GABRIEL MENDES: E já que você falou sobre isso, você acha que é importante o escritor ter um posicionamento claro? Tipo, o Paulo se apresentava como escritor de espiritualidade, de romance, de autoajuda…

CARLOS EDUARDO RANGEL: Na verdade, eu não vejo Paulo como escritor de autoajuda. Não vejo mesmo. Acho ele um escritor multifacetado, um contador de fábulas.

GABRIEL MENDES: Desde o início da carreira dele?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Não. Ele foi evoluindo, no jeito dele, na forma como escreve. Eu vejo ele como um contador de fábulas, boas histórias. A arte de contar boas histórias, entende? Você sabe que o Paulo escreve um livro em 15 dias, né?

Foi a primeira coisa que ele me perguntou quando mandei o meu. Eles adoraram. Aí ele: “Dudu, em quanto tempo você escreveu o livro?” Eu: “Acho que uns três meses.” Ele tirou sarro. Eu falei: “Pô, Paulo, eu sei que você escreve em 15 dias, mas o meu levou três meses.”

GABRIEL MENDES: Mas pra quem vai apresentar uma obra pra editora e fazer um pitch, você acha que tem que ter esse posicionamento de carreira bem definido?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Acho que, de alguma maneira, sim. Tem que classificar sua obra. Isso é natural. Mas não sei até que ponto tem que ser tão rígido. Porque quem realmente vai te classificar é o leitor. É o leitor que te classifica. E, pra isso, você tem que ter muitos leitores. Só assim você começa a ver uma maioria que te aponta um caminho, uma linha.

Inclusive, a tradutora do meu livro, eu falei pra ela: “Escrevi uma história de amor.” Ela leu e falou: “Sinto muito, mas teu livro não é o que você está pensando que é.” Aí você se dá conta de como as leituras são muito diversas. Tem gente que classifica o Paulo, até hoje, de esotérico. Pelo amor de Deus! Além do mais, sabe o que era esotérico? Os escritos do Aristóteles. Eram anotações de aula, não livros publicados. Então o que ficou do Aristóteles é esotérico. Misturar essas denominações é perigoso. Esotérico ficou com essa coisa estigmatizada.

GABRIEL MENDES: Sobre a Bienal do Rio que acontece agora, você acha que o escritor precisa estar nesses grandes eventos?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Olha, se não tiver uma estrutura de marketing boa da editora, o escritor passa como um personagem invisível. Tem que ter algo concreto preparado. Isso não se faz de um dia pro outro. Tem que ter planejamento, aproximação com o público. É trabalho prévio. Muito trabalho. Muito joelho, muito cotovelo na mesa elaborando uma estratégia eficiente. Se não for assim, pode acabar gastando dinheiro e perdendo tempo sem ter resultado.

GABRIEL MENDES: No meio do seu livro, eu lembro de ter lido um episódio que você fala que o Paulo Coelho foi publicado nos EUA porque um tradutor lá gostou tanto do livro que apresentou pra HarperCollins e a convenceu a comprar os direitos da obra. Você acha que existe também um fator de sorte no sucesso de um escritor?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Claro! É evidente. Tem sim o fator sorte. Se eu não acreditasse nisso, não poderia escrever vários episódios que eu conto no meu livro. Mas há também muito trabalho! Muito trabalho mesmo… De preparação, de promoção… E isso que sustenta os resultados que vemos hoje. É um conjunto de fatores. Ações do passado que repercutem no futuro. A sorte te encontra enquanto estiver trabalhando.

Esse cara que traduziu era um americano aposentado, dono de uma pousada. Já tinha feito a vida dele, começou a aprender português, traduziu, tinha contatos… e conseguiu. Foi incrível. Naquela época, publicar nos EUA era como conseguir um contrato com a Planeta hoje. 

A Mônica, agente literária, também foi essencial pra isso. Você lê a dedicatória do “A Margem do Rio Piedra eu sentei e chorei”, descreve perfeitamente sobre ela.  Ela botou lenha na fogueira aqui na Europa, e o livro explodiu aqui.  A gente trabalhava muito, era uma barbaridade. Eu tinha jornada dupla no meu trabalho como farmacêutico e na Agencia sustentando o sonho e ainda éramos jovens com sede de viver.

GABRIEL MENDES: E pra quem tá começando na carreira de escritor: você acha que é importante ter um agente literário?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Não sei te dizer hoje. Eu nunca tive agente literário. Sou meu próprio agente.  Posso fazer bem ou mal.  Converso muito com a Mônica, que é a grande agente do Paulo até hoje.  Mas até ela e eu temos dúvidas sobre como posicionar um escritor hoje no mercado. É complicado.

Acho que, se você vai ser o seu próprio produto, se vai se inventar digitalmente, talvez você precise de um agente. Mas essa pessoa vai fazer o trabalho por você?  Não! Entende o que quero dizer? Então, eu não sei mais qual o papel de um agente literário.   Talvez pra um brasileiro que queira se lançar no exterior sem nenhum contato, sim.  Mas, fora isso, pode até acabar perdendo dinheiro — o investimento pode ser maior do que o retorno.

GABRIEL MENDES: Na teoria, o agente literário pode ajudar como? Abrindo portas? Conectando o autor?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Pode ser que consiga, por ter contrato com editoras, publicar a novela. Mas aí entra o negócio.  É como uma reforma na sua casa: ou você mesmo entende e dirige a obra, ou contrata um mestre de obra pra tocar.  Não sei bem onde o agente se encaixa hoje nesse cenário. Pra mim, nesse mundo que a gente vive, esse papel não está claro.

Por exemplo, vejo a Mônica como uma grande agente literária, mas ela é exclusiva do Paulo Coelho, hoje em dia, não sei quais seriam os requisitos. Engraçado você perguntar, porque eu nunca pensei nisso.  Quando me lancei, nem me passou pela cabeça ter um agente.  De alguma forma, eu achava que sabia, mas percebi que não sei nada. (Risos) Deixo como pergunta pra você.

GABRIEL MENDES: Minha experiência é que no Brasil tem pouquíssimas empresas de agenciamento, e elas já têm centenas de autores…

CARLOS EDUARDO RANGEL: Aí está a resposta.  Funcionam como editoras: só querem saber de quem “vai dar certo”, como naquela música dos Titãs.

GABRIEL MENDES: Última pergunta. Você acha que o bom autor está sempre próximo do seu leitor? Mesmo com o digital, que às vezes distancia?

CARLOS EDUARDO RANGEL: Claro. Nem na época do Paulo era diferente. Ele tinha uma relação de proximidade com o leitor.  Isso é fundamental.  O escritor que é muito “ostra” não vai ter o público que imagina. É preciso contato com o leitor.

Hoje já tem até meios digitais em que o livro vira participativo — o leitor manda mensagens, interage com o autor.  Não conheço bem, mas já vi que existe.  E, dentro do respeito, isso é bom. A obra é do autor, tem que ser tratada com respeito.  Mas trocar ideia é legal.  Tem gente que não vai gostar, tem gente que vai. Isso faz parte.

Várias pessoas opinam sobre minha obra, dizendo:  “Eduardo, você podia ter explicado melhor aquela parte…”  E eu falo: “Expliquei o que tinha que explicar. Se tiver curiosidade, me pergunta.”

Mas, claro, tem muita coisa que ficou de fora.  Imagina se eu escrevesse sobre todos os episódios engraçados e interessantes que vivemos…O livro teria 500 páginas — e eu não queria isso. (Risos)  Mas a troca com o leitor é essencial pra aperfeiçoar o trabalho.

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