ENTREVISTA EXCLUSIVA SOBRE VENDAS GOVERNAMENTAIS DE LIVROS
A escrita no Brasil pode ser uma jornada lucrativa, especialmente quando se aventura no terreno das vendas governamentais. Gabriel Mendes, em uma entrevista exclusiva, conversa com Natália Vieira da Radar Licitações. Reconhecida como uma autoridade no assunto, Nathalia desvenda para os leitores da PANORAMA DA ESCRITA os mistérios e estratégias essenciais para um escritor não apenas ingressar, mas também prosperar e se destacar neste nicho promissor.
Panorama da Escrita: Quais são as maiores preocupações de um escritor ao vender para o governo?
Natália Vieira: O primeiro ponto é o escritor ser conhecido. Ninguém vai comprar algo que não conhece. Portanto, é importante criar um relacionamento com quem desejamos vender. O que faz todo sentido. Se você quer vender algo para alguém, precisa primeiro se apresentar. O segundo ponto é o autor entender que se trata de um relacionamento de longo e médio prazo. As secretarias têm um tempo próprio para compra. Elas precisam separar um orçamento. É um processo que pode demorar até dois anos para acontecer.
Panorama da Escrita: Como fica a questão do autor independente?
Natália Vieira: O autor precisa ficar atento às oportunidades que surgem, pois existem editais que permitem até que autores independentes façam a inscrição de seu material. Infelizmente, a maioria dos editais exige a presença de uma editora, como, por exemplo, o próprio PNLD. Portanto, eu indicaria dois caminhos para o autor independente: fazer uma parceria com uma editora para o fim específico de venda governamental e investir em sua divulgação como autor nas mídias sociais e em uma comunicação com as secretarias governamentais. Você já visitou a secretaria de Educação? E a secretaria de Cultura? E as secretarias do seu Estado? Você só consegue ter um relacionamento se agir.
Panorama da escrita: E como é possível fazer esse relacionamento? É por e-mail? Visitando pessoalmente?
Natália Vieira: Na Radar, nós falamos com cada uma dessas pessoas, de cada secretaria, entendendo o que elas querem. É um trabalho muito voltado para networking e conexão. Um trabalho de médio e longo prazo. Às vezes, a secretaria não tem verba em um determinado ano, mas ela pode incluir na dotação orçamentária do ano seguinte. Então, se não mantivermos um relacionamento, tudo será em vão.
Panorama da Escrita: Ser conhecido é, então, um ponto fundamental para o autor vender seus livros ao governo?
Natália Vieira: Sim, o autor precisa ser conhecido. Ninguém vai comprar algo que desconhece. Portanto, é importante investir nas redes sociais, estar presente em bienais e feiras, como a FLIP, e participar de encontros das secretarias de cultura, além de atividades da própria secretaria. Como você vai entrar no círculo literário se não está presente e não participa da comunidade? O autor também precisa procurar parcerias. Por que não fazer um projeto conjunto com outro escritor que tem um assunto complementar? Criar uma comunidade é fundamental. A venda de livros para o governo é um trabalho maçante e constante, que exige dedicação diária.
Panorama da Escrita: Há alguma temática de livro que é mais contemplada em editais?
Natália Vieira: Isso varia muito de acordo com o interesse da secretaria. No entanto, há alguns temas que acabam se repetindo. Com a pandemia, ficou claro para todos que a inteligência emocional é algo necessário a ser trabalhado. Portanto, temas como inteligência emocional, ansiedade e discussão sobre sentimentos são frequentes. Assim, a educação socioemocional ganhou um grande espaço nas secretarias. Por isso, se um autor deseja escrever um livro com foco em vendas governamentais, ele precisa entender o momento que estamos vivendo e o que está acontecendo no mundo. Por exemplo, em 2025, o Rio de Janeiro será considerado pela UNESCO como a cidade do livro. Então, a cidade do Rio de Janeiro realizará ações ligadas a isso. É importante ficar de olho, pois certamente sairão editais relacionados a isso. Em resumo, é importante estar atento para aproveitar oportunidades.
Panorama da Escrita: Você acha que o autor e a editora deveriam oferecer uma proposta pedagógica junto ao livro para vendas governamentais?
Natália Vieira: Não é obrigatório, mas, sendo realista, isso faz muita diferença. As pessoas nas secretarias estão envolvidas em muitos projetos pedagógicos. Portanto, a comunicação e a entrada se tornam mais fáceis quando você traz um projeto. Além disso, é importante que seja maleável para se adequar às necessidades daquela secretaria. Assim, se o autor, além do livro, oferece palestras ou atividades que envolvam o leitor, tem uma chance maior.
Panorama da Escrita: Além do PNLD e do ProAC de São Paulo, você destaca mais algum outro edital?
Natália Vieira: Com certeza. Um dos maiores editais é o MINHA BIBLIOTECA do governo de São Paulo. Neste edital, são contemplados diversos títulos, inclusive entregues na casa das crianças. O objetivo do programa é formar uma biblioteca para que a criança na primeira infância tenha contato com os livros. Além desse, temos o Kit Literário e o Kit Afro-indígena de Belo Horizonte. Ano passado, tivemos o edital de Jaboatão, e há dois anos, o de João Pessoa. Você tem que estar o tempo todo de olho.
Panorama da Escrita: Existe alguma forma melhor para abordar essa secretaria?
Natália Vieira: Vou explicar como fazemos aqui na Radar, quando se trata de uma editora. Pegamos os livros, analisamos o conteúdo de cada título, identificamos os pontos fortes e criamos um material para apresentar às secretarias. Então, fazemos uma chamada de vídeo ou visitamos presencialmente cada secretaria para mostrar o diferencial da qualidade de cada livro. Claro que, nesse processo, você vai ouvindo muito, adaptando sua proposta, até porque tem a questão do orçamento. Existem várias formas da secretaria abrir uma compra: dispensa de licitação, compra por inexigibilidade ou abertura de uma licitação. Mas o principal é fazer networking, se conectar com quem está do outro lado. Aliás, é muito positivo quando apresentamos um livro de um autor que grava reels, que se comunica com seu público, que está ativo em diversas mídias.
Para autores independentes, temos um plano de disparo de informações para nossa base, apresentando os autores e seus livros, com seus e-mails. Alguns recebem retornos e, a partir daí, no ano seguinte, conseguimos trabalhar o livro. É importante testar as coisas. Na Radar, trabalhamos muito com dados, mensurando os resultados. Geralmente, o autor demora uns dois anos para ter retorno, porque no primeiro ano ele se torna conhecido e, depois, passa a ser interessante para a secretaria.
Panorama da Escrita: Fale um pouco sobre o trabalho da Radar Licitações.
Natália Vieira: Nós temos dois grupos de trabalho. O primeiro foca na divulgação de obras literárias, projetos pedagógicos, livros didáticos e técnicos, diretamente para secretarias de educação, cultura, meio ambiente e outras com as quais mantemos relacionamento em nossa base. Oferecemos planos para editoras e temos o boletim independente “Você no Radar”, um disparo quinzenal para nossa base com informações dos autores. O e-mail de contato para as secretarias é o do próprio autor, que nos dá o feedback sobre os retornos. Temos também um serviço de aviso de licitações, que são divulgadas semanalmente para o mercado editorial. É importante entender que o trabalho com o governo é a médio e longo prazo. Normalmente, a partir do segundo ano começa-se a ter algum retorno, mas, dependendo do panorama político, pode demorar três ou quatro anos.